Blog da Oficina

E se eu cair?



E se eu cair? E se eu transformar todos os olhos expectantes de fascínio lá embaixo em vítimas do pavor? Basta errar um movimento e vou metamorfosear a arte do trapézio no espetáculo da morte. Que graça há nisso?

Para quem me enxerga de fora, pareço confiante. Ninguém adivinharia que, apertada no corset de purpurina dourada e com as mãos escorregadias de suor — limpá-las não ajuda em nada, são terrivelmente obstinadas —, estou pensando no que será de mim se eu cair. Minha carne vai decorar o picadeiro, é claro, e talvez meu corpo dê uma última estatelada antes do fim — será que meus ossos triturados irão parar nas manchetes? É possível que eu resista alguns minutos, e será uma grande frustração quando eu perder totalmente a cor dos vivos dentro da ambulância, as sirenes fazendo ióióió, a menina virou pó. Vão me enterrar ao lado de estranhos, como acontece com os desafortunados de todas as naturezas, mas quem sabe São Filomeno tenha piedade da minha alma e a presenteie com bons amigos no outro lado. Se eu cair, esquecerão o episódio daqui a dois meses e seguirão suas vidas. É assim que o mundo funciona.

Por outro lado, se eu não cair posso virar uma estrela — minha mãe, os céus a tenham, sempre dizia que, depois que morremos, viramos estrelas no céu. Mas agora me refiro a estrelas na Terra. Serei eu a brilhar nas capas de revista, meus turvos olhos amarelados e sobrancelhas tortas dominando o mundo. Vou reinventar a gravidade como a maior trapezista de todos os tempos, vou rir para os flashes, ter uma coruja de estimação e nunca mais vou passar fome. Mais ninguém vai rir de mim, a não ser que eu deixe. Serei eterna para sempre. Se eu não cair, poderei lutar. Talvez até me apaixone — não seria maravilhoso? Oh, sim, seria! Justo eu, que nunca fui vista como algo além de um pequeno objeto torto e leve, bonita de longe e carismática de perto. Sim, definitivamente eu mereço mais! É assim que o mundo deve funcionar.

Com os olhos concentrados e as mãos apertadas ao redor da barra de ferro, dou o primeiro impulso. Não há chão sob meus pés — estou mais perto de Deus do que qualquer um presente. Meu corpo desenha curvas no ar e um par de mãos fortes me leva para o outro lado. Sorrio, vendo resquícios de purpurina dourada caindo, e o medo se dissipa quando o enfrento de novo, tantas e tantas vezes que não consigo parar.

Até que...

Minha palma suada escorrega.

E se eu sobreviver?

Vitória Cássia Paliari
06/02/2017

 

 

Site desenvolvido por metamorfose agência digital

DEPOIMENTOS

"Fiquei muito satisfeito com o conteúdo da Oficina. Minha experiência com escrita, agora vejo com maior clareza, era inteiramente prática ou intuitiva e, certamente, passível de ser substancialmente melhorada. Gostei muito da orientação obtida através da Oficina e, em particular, da tua avaliação do material dos desafios."

Décio Oliveira Elias,
Rio de Janeiro, RJ

mais depoimentos

 

Para Oficina de Criação Literária

 

 

 

curso desenvolvido pela