Blog da Oficina

E se ...



Como de hábito, enquanto tomava meu café da manhã, observava furtivamente o vizinho da casa em frente. Homem de uns quarenta anos, morava na companhia da esposa até a morte dela, há cerca de uma semana. A casa já era demasiado grande para duas pessoas, e agora parecia um imenso navio sem tripulação. Apenas um capitão solitário indo e voltando do trabalho e, ao chegar, envolvido com tarefas de limpeza e organização, como se a conservação do espaço tivesse o poder de dar continuidade a uma vida que já não existe.

Antes parecia haver sempre uma aura de alegria em volta deles, e, se alguma vez adivinhei que discutiam, logo voltavam à rotina dos abraços, tudo se resolvia sem deixar marcas. Acompanhei, sempre protegida pelo vidro escuro, a degradação física da mulher, acometida por doença grave, que os fazia sair rotineiramente e voltar abatidos, ela tendo que ser amparada para subir os poucos degraus da frente.

No último mês, ele passava o tempo todo em casa, certamente velando pela mulher já destruída pela doença. Eu ainda podia vê-lo, emagrecido e desanimado, nas poucas vezes em que se permitia tomar um ar fresco, em frente à casa.

Pensei muitas vezes em invadir a fria aura de tristeza que agora era a moldura de um lar outrora cálido e apresentar-me à porta, oferecendo alguma palavra, algum conforto. Mas como fazê-lo, sem parecer obsessão o carinho que nutria pelos dois, à distância, com inveja daquele amor doce e tranquilo que os unia?

Retraí-me, sempre, e mantive meu silêncio. A cada dia, notava-o absorvido pelas tarefas de organizar a casa. Até que o movimento cessou, súbito, e por dois dias minhas idas à janela não fizeram mais sentido. No terceiro dia, percebi alguém que batia à porta, com insistência, logo depois o carro da polícia, e mais gente acorreu. Foi encontrado suspenso por uma corda, o corpo sem vida, no quarto onde passou seus melhores e piores momentos.

Chorei minha culpa intolerável por vários dias: E se eu tivesse cedido ao impulso de levar-lhe uma palavra de consolo?




Maria Tereza Vieira Lopes
06/04/2017

 

 

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"Fiquei muito satisfeito com o conteúdo da Oficina. Minha experiência com escrita, agora vejo com maior clareza, era inteiramente prática ou intuitiva e, certamente, passível de ser substancialmente melhorada. Gostei muito da orientação obtida através da Oficina e, em particular, da tua avaliação do material dos desafios."

Décio Oliveira Elias,
Rio de Janeiro, RJ

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