Blog da Oficina

Um Menino



- Tô em casa... – diz a mãe, em voz baixa, ao entrar no apartamento.
- Oi, mamãe! Tava com saudade. – A menina se pendura nas pernas da mulher, eufórica e suada.
- A mãe também, meu amor. Como foi seu dia? – diz, afastando o rosto ligeiramente para o lado.
- Foi muito legal! Vovó me levou ao parquinho, e ela comprou sorvete de baunilha. Eu conheci um menino hoje, o nome dele é Roberto. Ele é novo no prédio e tem cinco anos também! E ele é muito engraçado... – A menina se interrompe, notando uma expressão estranha no rosto da mulher. – Mãezinha?
- Oi, filha.
- Você tá chorando? Tá tudo bem? – pergunta a criança, balançando o corpo nervosamente.
- Tá sim. A mamãe só está com saudades. – A mulher limpa pequenas lágrimas que brotam de seus olhos e acaricia a cabeça da filha.
- Saudades do quê?
- Do seu irmão. Hoje faz dez anos que ele foi morar no Céu.
- E por que ele foi morar lá? – pergunta a criança, encostando-se no sofá.
- Ele tava muito doentinho, aí o Papai do Céu decidiu levá-lo daqui. Aqui ele estava muito triste.
- Quantos anos ele tinha quando foi embora?
- Cinco, igual a você. – A mulher faz um carinho no nariz da filha – Mas então, Papai do Céu percebeu que a mamãe ficou muito sozinha aqui, na Terra, e decidiu mandar outro anjinho para cuidar dela. E esse anjinho é você – ela sorri, entre lágrimas, para a menina.
- Mãe... O Papai do Céu não deveria ter levado ele embora, porque você tá triste. Ele deveria ter curado o dodói do meu irmão. Eu queria que ele estivesse aqui pra brincar comigo.
- Mas agora você tem o Roberto, não é?
- É, mas ele não mora aqui em casa, não é a mesma coisa.
- Ah, filha... Já faz tempo que seu irmão foi embora. Agora ele é um anjo, lá em cima. E ele pode cuidar de você.
- Como que ele sabe quem sou eu?
- O Papai do Céu contou pra ele que mandou a menina mais bonita para fazer companhia à mamãe. Então, ele encontrou você bem rápido.
- E por que a gente não pode ir visitar ele no Céu?
- Porque fica muito longe daqui. Mas se você se comportar direitinho, quando ficar bem velhinha, vai morar lá no Céu com ele.
- Mas, mãe... Vai demorar muito tempo pra eu ficar velhinha. Queria falar com ele agora.
- Eu vou mostrar uma foto dele para você, aí você pode imaginar como ele era, e até conversar com ele. É só juntar as mãozinhas assim – ela entrelaça os dedos das mãos em frente ao peito –, e falar pelo pensamento. Vem, eu vou pegar uma foto.
***
- Achei – diz a mãe, voltando com um baú nas mãos. – Seu irmão adorava tirar fotos.
- Ele era parecido comigo? – pergunta a menina, revirando os retratos.
- Humm, era. E ele adorava contar piadas, sabia? Igual a você. Olha, encontrei uma foto. Esse aqui, do meio, é o seu irmão. – A mulher mostra uma foto com três garotinhos sorridentes, e aponta para o menor deles.
- Mãe?
- Oi, filha.
- Tem certeza que o do meio é o meu irmão? – A menina morde o lábio inferior, pensativa e confusa.
- Tenho sim. Olha para os olhos dele! São azuis, iguaizinhos aos seus – responde a mãe, juntando o rosto da filha ao da foto. Ela deixa escapar mais algumas lágrimas.
- Esse daqui não pode ser ele. – A filha se levanta bruscamente.
- E por que não?
- Porque esse ... – A menina faz uma longa pausa, analisando com cuidado o retrato nas mãos da mulher. – Porque esse é o Roberto, mãe.

Amanda Piazza
02/05/2017

 

 

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DEPOIMENTOS

"Fiquei muito satisfeito com o conteúdo da Oficina. Minha experiência com escrita, agora vejo com maior clareza, era inteiramente prática ou intuitiva e, certamente, passível de ser substancialmente melhorada. Gostei muito da orientação obtida através da Oficina e, em particular, da tua avaliação do material dos desafios."

Décio Oliveira Elias,
Rio de Janeiro, RJ

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