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E se não fosse um lobo mau?

Chapeuzinho Vermelho não era seu verdadeiro nome. Só era assim por causa daquela capa medonha que a mãe fazia ela vestir toda vez que saia de casa. Chamava-se Leila, um nome que a agradava muito, mas que ela só ouvia quando a professora fazia a chamada ou quando conversava com sua avó. Usava a capa para ir à escola, ao armazém e a casa da vovó, os únicos três lugares que a mãe lhe permitia ir sozinha.

De todas as atividades, a que mais gostava era ir visitar sua avó e fazia isso todos os sábados de manhã, levando bolinhos feitos pela sua mãe. Era sagrado, todo sábado, sem falta. A avó estava sempre pronta para recebê-la. A mesa do café posta com aquelas xícaras de porcelana que ela adorava, os talheres antigos de prata e a toalha de renda branca tão cheirosa. Ficava horas ouvindo as histórias da vovó sobre sua viagem de navio, quando veio da Europa sozinha para o Brasil, ou de quando lutou em defesa dos direitos das mulheres. A vovó também falava do avô, um homem muito bom, que havia sido seu maior encorajador para que ela estudasse e tirasse seu diploma. Ficava imaginando como era esse homem, que ela nem havia conhecido, pois morrera muito tempo antes de ela nascer.
Às vezes, Chapeuzinho sentia pena da vovó, vivendo naquela casa, sozinha, tão afastada de todos. No entanto, a vovó sempre dizia gostar muito do seu estilo de vida.
Um sábado, Chapeuzinho amanheceu com uma indisposição estomacal e não pôde fazer sua habitual visita. Passou o dia de cama, se recuperando. No domingo, acordou bem e implorou para sua mãe que a deixasse ir até a casa da vovó, que deveria estar profundamente preocupada, já que não havia aparecido no dia anterior. Depois de muita argumentação, a mãe deixou. Preparou a cesta com os bolinhos e pediu que a filha não demorasse.

Quando chegou a casa de sua vovó, Chapeuzinho empurrou a porta, que estava sempre aberta. Ficou muito feliz quando viu a mesa já posta para duas pessoas, como se a vovó já imaginasse que ela viria. Foi entrando e chamando sua avó. A casa era muito pequena, então ela só podia estar no quarto. Empurrou a porta do quarto, fazendo um rangido. Ao mesmo tempo, Chapeuzinho viu um vulto saltar da cama e parar ao lado da janela e quando olhou para a cama viu sua avó cobrindo o corpo até a altura do nariz. Olhou para o outro lado e viu um senhor, sem camisa, de calça jeans, sorrindo meio sem graça. Chapeuzinho deu alguns passos para trás, ainda observando a cena e depois correu em direção a sua casa.

Enquanto corria, uma sombra avermelhada a perseguia, efeito da sua capa esvoaçante. Ela sentia algo lhe apertando, mas não sabia ao certo se era dentro ou fora da garganta. Decidiu desatar o nó da capa e soltá-la de seu corpo, deixando para trás o pano encarnado no meio da floresta.

Carol Silva
30/06/2017

 

 

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"Fiquei muito satisfeito com o conteúdo da Oficina. Minha experiência com escrita, agora vejo com maior clareza, era inteiramente prática ou intuitiva e, certamente, passível de ser substancialmente melhorada. Gostei muito da orientação obtida através da Oficina e, em particular, da tua avaliação do material dos desafios."

Décio Oliveira Elias,
Rio de Janeiro, RJ

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