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E se ela se cansasse?



Numa manhã ensolarada de verão, ela percorria lentamente o corredor principal. A porta do quarto de número quarenta estava entreaberta. O ar condicionado deixava o cômodo gelado, e o cheiro de urina e antisséptico impregnavam o ambiente. Deitado de lado, o velho homem só percebe sua companhia quando ela se senta na poltrona à sua frente.

Ainda acordando, levemente drogado, ele demora a reconhecer a visitante. Então se dirige a ela: “ah, você chegou... Apesar de tudo, não esperava que viesse tão cedo. Já está na hora?”

Sem responder à pergunta, com o corpo jogado e os braços caídos ao lado do assento, a cabeça apoiada no encosto, ela olha para o teto por longos minutos. Com um profundo suspiro, ajeita o corpo, apoia as mãos nos braços da poltrona e se levanta cuidadosamente. Estende a mão direita, convidando o velho a se levantar também. Sem serem vistos pela enfermeira que acabara de entrar, os dois saem do quarto e caminham lado a lado, rumo à saída do Hospital.

No dia seguinte, a Ceifadora tomava sua decisão: o mundo poderia suportar algumas horas sem ela. De pé, encostou a foice na parede de tinta descascada do hotel. Retirou os trapos que lhe cobriam o corpo, e os jogou no chão, espantando uma barata. Então saiu a caminhar. Primeiro sem destino, depois rumo à orla. Tomou um ferry, desembarcando alguns minutos depois na Ilha da Liberdade. Deitou-se embaixo da imóvel figura verde, e a observou detidamente: na mão direita estendida a tocha, na outra a tabula ansata. Uma corrente quebrada sob seus pés.

Continuou observando-a, e os minutos se tornaram horas. As horas, dias. Em certo momento, ouvia a conversa de um casal que sentara à sua frente: “É verdade!” dizia o rapaz. A namorada, disfarçando um bocejo, tentava prestar atenção na longa história. “Ela estava desenganada pelos médicos há meses! Saiu ontem do hospital, andando com as próprias pernas. E aquele garoto do México”, continuou o jovem, “que foi atropelado por um ônibus, saiu da UTI depois de dez dias. Os médicos disseram que era um milagre. E não é só: eu li ontem que são dezenas de outros casos em todo o mundo!”, tagarelava o garoto, de forma incessante.

Ela então se deu conta do tempo que havia passado. Tinha trabalho a fazer. Voltou ao quarto do hotel e vestiu sua roupa. Tomou a foice da parede, sem se importar com as teias de aranhas que seguiam dependuradas no cabo. Olhando pela janela em direção à Lower Manhattan, falou baixinho para si mesma: “preciso recuperar o tempo perdido”. E naquela manhã ensolarada de verão, o primeiro avião atingiu a Torre Norte às oito e quarenta e seis. O impacto foi ensurdecedor. Às nove e três, o segundo Boeing atingiu a Torre Sul.

Fabricio Bernardo Pereira
22/08/2017

 

 

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"Fiquei muito satisfeito com o conteúdo da Oficina. Minha experiência com escrita, agora vejo com maior clareza, era inteiramente prática ou intuitiva e, certamente, passível de ser substancialmente melhorada. Gostei muito da orientação obtida através da Oficina e, em particular, da tua avaliação do material dos desafios."

Décio Oliveira Elias,
Rio de Janeiro, RJ

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