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E se ela continuasse algemada?



Acordou e ainda estava algemada. Esfregou os olhos com uma das mãos e tateou pela cama à procura dos óculos; encontrou-os perto da cabeceira e posicionou a armação próxima aos olhos, como gostava de usá-la, para ter certeza de que não deslizaria nariz abaixo.
Encarou, pelo espelho do armário capenga em frente à cama, seu cabelo desarrumado, tentando lembrar por quanto tempo ficara ali. Pela janela entreaberta, viu que já escurecia, o que lhe provocou um sobressalto; estava ficando com fome.
As algemas, presas em uma longa corrente metálica, permitiam que se deslocasse livremente por toda extensão do quarto, e também pelo corredor que conduzia ao cômodo subjacente, uma sala – que se encontrava em penumbra pelo avançado da hora. Ligou as luzes. Desnorteada, sentou-se na poltrona coberta pela malha de crochê e resmungou baixinho, lamentando ter perdido a chance de ir lá fora. Tentou ouvir o barulho do outro lado da parede, mas lembrou que há muito ninguém mais morava ali.
Então decidiu que tentaria sair sozinha mesmo, sem a companhia dos demais cativos, ainda que correndo o risco de ser castigada por seus captores. Já era noite. As algemas, apesar de já aderidas aos punhos, estavam corroídas pela ferrugem, então conseguiu removê-las, tracionando a parte serrilhada da pulseira metálica. Destrancou a porta, silenciosamente, e desceu os dois lances de escadas que lhe separavam da rua.
Abriu a porta e sentiu o vento quente de janeiro. Olhou para os dois lados e viu que muitas famílias pareciam retornar de seu veraneio. Sabia que aquelas pessoas não poderiam lhe ajudar caso fosse encontrada por eles, mas sentiu-se suficientemente segura para sair. Colocou o corpo para fora, fechou a porta cuidadosamente e começou a caminhar.
Já era noite. Chegou no mercado da esquina e a fila estava grande, o que lhe causou extremo desconforto, pois vira dois suspeitos no caminho: poderiam lhe causar problemas no retorno. Pediu três pães para levar. O atendente demorou-se na entrega do dinheiro, então pediu para ficar com o troco, já que tinha pressa em retornar. Acelerou o passo e atravessou a rua para desviar dos suspeitos que vira no caminho de ida. Não estavam mais lá.
Estendeu a mão para alcançar a maçaneta o mais rápido possível. Entrou e fechou a porta atrás de si. Fez o sinal da cruz, agradecendo por ter chegado até ali. Subiu as escadas, adentrou a sala e vestiu as algemas. Agora em paz, comeu a janta que havia comprado. Estava novamente onde seus captores esperavam que estivesse. Ligou a televisão para assistir às notícias do dia e, bebericando a xícara de café que havia preparado, contemplou as luzes da cidade pela janela.


Milena Nunes
14/11/2017

 

 

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"Fiquei muito satisfeito com o conteúdo da Oficina. Minha experiência com escrita, agora vejo com maior clareza, era inteiramente prática ou intuitiva e, certamente, passível de ser substancialmente melhorada. Gostei muito da orientação obtida através da Oficina e, em particular, da tua avaliação do material dos desafios."

Décio Oliveira Elias,
Rio de Janeiro, RJ

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