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Maria vai para creche?

— Pensou no que falei? — Olha para a esposa esperando uma confirmação.

— Ah...aquilo que conversamos outro dia?

— Você bem sabe, não se faça de desentendida, amor. Ela já tem idade, precisa conviver com outras crianças.

— Claro, e ficar doente a cada vez que for para a escolinha, “amor” — fala com ar de deboche e olhos em brasa —. Não precisamos disso, Maria está muito bem com a babá, na casa de minha mãe. Além disso, ela tem só um ano e meio. Vamos esperar mais um pouco.

— Ufa... não adianta. Já falei para você que a babá está querendo sair e a sua mãe já é idosa. O que vamos fazer se a babá não quiser mais o emprego? Temos que trabalhar. Além disso, pelo valor de uma babá compensa mais uma escolinha! Não tem nem os encargos sociais...

— Então é isso! Você está pensando é em reduzir gastos. O que vale mais a pena: a saúde de nossa filha, bem cuidada e vigiada o tempo todo, ou um lugar lotado de crianças com apenas uma ou duas cuidadoras, podendo se machucar e cair?

— Mas, mas...

— E fique tranquilo, que se uma babá sai, outra entra.

— E as visitas que fizemos às escolinhas? Não valeu de nada? Pense bem, aquela perto de casa, tem bastante área verde.

— Eu só fui por insistência sua, como uma segunda opção, depois que a babá disse que fez um concurso público e talvez deixaria de trabalhar para nós.

— Olha que ela está na lista de espera, amor...

— Mas isso ainda não se concretizou, carinho. E quanto à escolinha, aquela de parede azul, perto de casa, que você falou, notou por acaso o cheiro de xixi e mofo por todo o lugar, as crianças vendo tevê o tempo todo? Notei até uma criança pegando a mamadeira de outra e colocando na boca... faça-me um favor, essa não.

— E aquela perto da casa de sua mãe? Parece uma boa escolinha, com um playground enorme para a Maria. Assim, querida, os seus pais poderão ir vê-la quando quiserem e até buscá-la para nós, fica só a duas quadras da casa deles.

— Vixe, essa, muito menos! Eles disseram que não dão banho, a Maria já tem que vir pronta para a escolinha e almoçada, com pelo menos dois brinquedos na mochila e a bolsa do nosso bebê feita. E não é só isso, se quisermos que seja dado leite para ela, eles dão de saquinho apenas. Em outras palavras, vai ficar tudo para eu fazer e você nada, bonitão... mas para a gente encerrar o assunto, proponho contribuir com as despesas da babá, trinta por cento.

— Quarenta?

— Trinta e cinco e não falamos mais no assunto.

— Fechado, Maria não vai para a creche.

***

Luciano Sandim Corrêa, natural de Campo Grande-MS, é graduado em Direito pela UCDB, curso concluído em 2001, e pós-graduado em Direito do Trabalho e Processo do Trabalho pela UNIDERP e em Direito Administrativo pela Universidade Anhanguera-UNIDERP, tendo concluído os cursos mencionados nos anos de 2007 e 2012, respectivamente. Exerceu a advocacia entre os anos de 2002 a 2008. Atualmente, vive em Cuiabá-MT, ocupando o cargo de Analista Judiciário perante o e. TRT da 23ª Região. Além do Direito, interessa-se por História, línguas estrangeiras, literatura e poesia e está participando da Oficina de Criação Literária 2018, sob a orientação do professor Marcelo Spalding.

Luciano Sandim Corrêa
05/09/2018

 

 

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"Fiquei muito satisfeito com o conteúdo da Oficina. Minha experiência com escrita, agora vejo com maior clareza, era inteiramente prática ou intuitiva e, certamente, passível de ser substancialmente melhorada. Gostei muito da orientação obtida através da Oficina e, em particular, da tua avaliação do material dos desafios."

Décio Oliveira Elias,
Rio de Janeiro, RJ

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