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Compartilhando bergamotas

Não lembra há quantos invernos não fazia tanto frio. Semanas e semanas de chuva, a umidade já penetrara os ossos. Não só nos ossos, estava com a alma congelada. O frio era tremendo. Frio de renguear cusco, como se diz aqui nos sul do país. Sozinha, sem um cobertor de orelhas para lhe aquecer. Acordou louca por um chimarrão. Espreguiçando-se, olhou para a rua e deparou-se com o sol acolhedor. Pegou a sacola de bergamotas, a térmica e o mate e foi para a praça em frente à casa.

Aquela praça era o pátio de seu apartamento. Frequenta-a desde a barriga da mãe. A pracinha lá no alto, com balanços coloridos, escorregador e tanque de areia, simples, onde passou bons dias construindo vulcões, castelos e correndo. O lago... ali jogava pão para as carpas vermelhas e brancas, observando os movimentos de ir e vir intermináveis. Vida simplória, pensava viver sempre ali naquelas águas escuras nadando de um lado ao outro. E quando a dona pata resolvia ampliar a família, era só festa. Os patinhos vinham comer o pão que jogava para os peixes. Um dia resolveu pegar um no colo. A ideia foi péssima, pois a mamãe pata veio em socorro do filhote e lhe deu muitas bicadas. Voltou para casa chorando, toda machucada.

As árvores eram em número suficiente para formar um bosque de ipês roxos e amarelos, pitangueiras, goiabeiras e jacarandás. Com o bosque próximo, os sabiás, os joões de barro e as corruíras garantiam o canto das manhãs e finais de tarde. Adorava olhar lá de seu quarto e ver aquele tapete colorido de flores. Na estação, só a paineira pintava de rosa a paisagem. Na primavera, a variedade das cores e o perfume lhe faziam viajar e sair para o dia cantando. Agora a árvore que mais amava era a figueira. Ela devia ter uns cem anos, fez parte de todos os ciclos de sua vida. Raízes fortes saem da terra formando pequenos espaços, lugar mágico, ali brincou com as amigas. Os galhos largos e fortes, bons de subir, explorá-los, bater corrida, quem ia mais próximo ao céu. Na adolescência, o terceiro galho lhe permitia uma visão ampla da praça, e um maior sossego para meditar. Às vezes, seu cãozinho, um pinscher, vinha com ela e ficavam lá como numa torre do castelo a observar os passantes. E seus frutos pequenos de um sabor ímpar.

Bora aproveitar o sol. Hoje está muito saudosista, resultado dos dias nublados que o antecederam. Abriu a canga, descascou uma bergamota, inspirando o cheiro, respirou ... ia comer o primeiro gomo, quando da figueira, salta um jovem rapaz.

– Quem és tu? – Fala quase gritando, para encobrir o susto. E já fazendo sinal para levantar.

– Eu, eu dona? Não sou ninguém. Sou o morador dessa árvore, fique tranquila, não mordo. Hoje eu precisava do sol, tinha escolhido a grama ao lado da figueira, fora do alcance dos galhos.

Ela olhou para cima e de fato, lá no terceiro galho, seu antigo espaço de meditação, um velho colchão era a base para as mantas e a lona preta que formavam uma cabana.

– Faz tempo que estás morando ai?

– Acho que sim, quando começou a chover. Dormia ali na calçada da padaria, certa noite acordei todo molhado, e achei esse lugar aqui. Ali era bem bom, o dono me acordava com um café bem quente e um pão.

– Sim, mas não chove igual?

– Chove sim, dona, menos, tem muitas folhas e galhos acima de mim. A lona evita que a água molhe a minha cama, e como estou no alto, meu colchão fica seco.

– Queres uma berga?

Ele pegou e sentou-se próximo.

Ela ficou pensando, aquela figueira era mesmo magnifica e solidária, tinha acolhido seus sonhos de infância e adolescência. Uma vez ela e o pai fizeram um projeto de construir uma casa na árvore. Levaram o projeto à prefeitura que não autorizou. E agora a figueira oferece seus galhos para abrigar esse homem. E o banheiro? Como será que ele faz? Ela espera que ele não utilize seus cantinhos escondidos das raízes. E o bosque? Espera que ele não o faça de vaso, e muito menos o lago! Isso não é problema seu, ou é?

A cidade, não adianta pensar sonhadoramente, tem que enfrentar, despeja gente pela janela ou pelo ladrão.

E, num silêncio sombrio, ficaram os dois a lagartear.

***

Magaly Andriotti Fernandes nasceu em Porto Alegre, em 1959. Psicóloga Jurídica, é membra do Grupo de Leitura e Criação Literária coordenado pela escritora Jacira Fagundes, junto à Metamorfose. Publicou, com outros autores, a coletânea de contos "Pra ver a banda passar: contando histórias de amor" (2018).

Magaly Andriotti Fernandes
11/09/2018

 

 

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"Fiquei muito satisfeito com o conteúdo da Oficina. Minha experiência com escrita, agora vejo com maior clareza, era inteiramente prática ou intuitiva e, certamente, passível de ser substancialmente melhorada. Gostei muito da orientação obtida através da Oficina e, em particular, da tua avaliação do material dos desafios."

Décio Oliveira Elias,
Rio de Janeiro, RJ

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