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Aventura

Plic. Ele puxou a coberta, tapou a cabeça e virou de lado. Plic. Virou de bruços e colocou o travesseiro sobre a cabeça, tentando tapar os ouvidos. Plic. Suspirou e levantou. De amanhã não passa, ele pensou. Inferno! Cinco dias sem dormir. Cinco!

Foi para o trabalho e cumpriu o de sempre. Preencheu uns formulários, quase que dormindo em cima dos papéis. Participou de reuniões chatas, na qual bocejava a cada três minutos. Reclamou do café fraco e frio, que parecia mais fraco ainda depois de noites mal-dormidas. Arrastava-se no escritório feito um zumbi.

Era um bom funcionário, mas nada mais do que isso, apenas bom. Assim como era um bom marido, segundo seu próprio parecer. Colocava dinheiro dentro de casa e não deixava faltar nada para a esposa. Não cansava de dizer que sua mulher era boazinha também, pois nunca reclamava de nada. E ainda cozinhava que era uma beleza.

A única coisa que estava estragando essa vida perfeita era a droga do chuveiro que não parava de pingar.

- Querida, o pedreiro veio arrumar o chuveiro? – ele perguntou quando chegou, à noite.

- Urrum... – ela respondeu displicente, olhando os próprios dedos e verificando se as unhas não estavam lascadas.

- E ele fez o serviço direito? – ele quis saber, ansioso por uma noite de tranquilidade e silêncio.

- Urrum... – continuou ela, desviando agora o olhar para o tapete, com um imperceptível sorriso nos lábios. – Passou a tarde inteira verificando a hidráulica e a elétrica. Serviço completo.

Feliz e aliviado, pensou que finalmente teria uma noite decente.

Jantou, a comidinha da esposa estava maravilhosa como sempre. Olhou o Jornal Nacional, depois passou para o canal de esportes e conferiu as notícias sobre futebol. Em seguida, riu de um programa bobo de humor que estava passando em outra emissora. Por fim, tomou banho, colocou o velho pijama de elástico rendido e foi para o quarto.

Afofou o travesseiro e deitou-se com aquela sensação aconchegante de quem teria o sono dos justos. Acomodou-se na posição mais confortável que encontrou e fechou os olhos. Enfim paz.

Plic.

***

Michele Tamusiunas é formada em Letras pelo Centro Universitário Lasalle e pós-graduada em Educação Infantil pela UFRGS. Durante doze anos foi professora de Língua Portuguesa na rede estadual de ensino do RS, sendo três concomitantes à rede municipal de Canoas. Desde 2012, leciona Língua Portuguesa na rede municipal de Porto Alegre.

Michele Tamusiunas
18/09/2018

 

 

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DEPOIMENTOS

"Fiquei muito satisfeito com o conteúdo da Oficina. Minha experiência com escrita, agora vejo com maior clareza, era inteiramente prática ou intuitiva e, certamente, passível de ser substancialmente melhorada. Gostei muito da orientação obtida através da Oficina e, em particular, da tua avaliação do material dos desafios."

Décio Oliveira Elias,
Rio de Janeiro, RJ

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