Blog da Oficina

A Casa

A Casa

Pude perceber que sua primeira visão através da grade foi o indefectível tapete amarelado feito das folhas secas caídas da grande seringueira. E soube também que, tão nítida quanto a visão daquelas folhas no chão, foi a imagem quase fantasmagórica do pai juntando-as com um rastelo e formando vários montes, enquanto a mãe, logo atrás, as acondicionava em grandes sacos de lixo.

Eu já o esperava. E também esperava a sua hesitação diante do portão. O movimento vacilante das mãos fazia tremer timidamente o pequeno molho de chaves, acusando seu desconforto diante da inevitável sucessão de memórias que aquele dia desencadearia.

Chegou sozinho, como também imaginei. Sendo filho único do único filho homem gerado por seus avós, coube a ele o destino de ser o último daquela modesta dinastia.
Sem muito se deter abriu o portão e, enquanto percorria o corredor do pátio, as lembranças, uma a uma, eclodiam dele de forma frenética, como uma série de slides projetados de maneira tão acelerada e aleatória que impediam um entendimento lógico: observou o gramado que tomava conta do quintal, onde ele e os amigos passavam as tardes jogando futebol, e reparou do quanto aquele espaço parecia maior na infância. Sorriu ao se ver sentado sobre um dos galhos fortes da goiabeira já extinta, na qual o seu antigo bando de piratas imaginários navegava em mares remotos pilhando as galeras do rei. Mas, antes de entrar na varanda, sentiu os ombros caírem quando a pequena porção lajeada do pátio, agora maculada pela grama rala, o fez lembrar do local onde o pai lavava seus carros velhos e para os quais ele reservava tanto tempo e carinho que causavam inveja ao menino.

Quando ele abriu a porta pude notar o quanto estava parecido com o avô. Não apenas pela cabeça calva, mas também pelo porte robusto e pelas feições do rosto sério e desesperançoso. Talvez intuído pela minha observação, instantaneamente ele se lembrou do velho. A recordação do velório do avô na sala central, acontecido há muitos anos, era tão clara para ele quanto para mim.

Nada havia mudado. A velha mobília, o cheiro, o ar melancólico dos últimos tempos, os amontoados de pó dos cupins que me corroíam tal como câncer, a louça acomodada no escorredor, a poltrona onde o pai passou metade da sua vida absorto em frente à televisão, a vassoura companheira da mãe e a caixa de remédios, escudeira na velhice dos dois.

Ele fazia um esforço desmesurado para lembrar de algo alegre, que pudesse fazer valer a pena a tarefa de inventariar todas aquelas coisas, mas o sentimento que dele emanava, e que reverberava em minhas paredes, denunciava a busca fracassada de uma mente contaminada por mágoas e frustrações.

Conhecia-o melhor do que ele mesmo. Não por conhece-lo desde quando nasceu, mas porque, quando estávamos a sós, ele se mostrava para mim em toda sua intimidade, de

uma maneira que alguém jamais se mostraria se soubesse que estava sendo observado. Dos seus choros, sabia os motivos, assim como também dos risos e até os seus pensamentos eu podia ler. E vendo-o naquele momento me dei conta que via o mesmo menino de antes. Se algo mudou, esse algo foi apenas o tempo. Para ele e para mim.

Eu sabia que aquilo era uma despedida. Me preparei para isso. Ele também. Estou velha. Sou um todo sem coesão. Uma sucessão de reformas urgentes e com aspecto desuniforme. Uma ferida onde as ataduras já não aderem mais. Sou uma história que precisa chegar ao fim.

Quando ele fechou a porta pela última vez, decido a não seguir adiante com aquilo, a não remover móveis e passados, não houve tristeza. Apenas um sentimento de cumplicidade. Uma mútua gratidão por segredos fielmente guardados entre nós. Ele nada levou. Nem as próprias fotos: deixou-as para mim como presentes de alguém que não quer ser esquecido.

Antes de eu ser derrubada, ainda o vi duas vezes. Em ambas, ele estava no outro lado da rua olhando para mim e para o menino que, com seu bando de piratas, brincava com a típica despreocupação das crianças inconscientes da fugacidade do tempo.

***

Carlos Vargas nasceu em Esteio, RS, em 1970. Músico aposentado e escritor novato.

Carlos Vargas
04/10/2018

 

 

Site desenvolvido por metamorfose agência digital

DEPOIMENTOS

"Fiquei muito satisfeito com o conteúdo da Oficina. Minha experiência com escrita, agora vejo com maior clareza, era inteiramente prática ou intuitiva e, certamente, passível de ser substancialmente melhorada. Gostei muito da orientação obtida através da Oficina e, em particular, da tua avaliação do material dos desafios."

Décio Oliveira Elias,
Rio de Janeiro, RJ

mais depoimentos

 

Para Oficina de Criação Literária

 

 

 

curso desenvolvido pela