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Água

A areia úmida esfria seus pés. Puxa a blusa fina de encontro ao corpo, para se proteger do vento frio. Olha em volta: não há ninguém. Sobe os degraus com cuidado, evitando pisar nas tábuas podres, e se vê em uma pequena varanda com o teto desmantelado. Força a porta da cabana com o ombro e entra. Cheiro de mofo e maresia. Fecha a porta. O vento sibila pelas frestas. O mar, gordo e mal-humorado, aproxima-se, tornando aquela língua de terra cada vez mais curta e mais estreita. Quando a vista se acostuma ao escuro, examina o lugar: resume-se a um único grande cômodo, com duas janelas e uma porta. Uma prancha sobre um cavalete serve de mesa, ao longo dela um banco comprido. As frestas das paredes deixam entrever tiras de paisagem, diluídas em cinza de chuva iminente. Olha para baixo e, pelas frestas do assoalho, vê que a água já passa em pequenas ondas por baixo da cabana, lambendo as estacas de madeira que a sustentam. Olha para cima e, através dos furos na palha, vê pedaços carregados de céu. Então a água virá por todos os lados... Senta-se e coloca o balde de mariscos no banco a seu lado. Quantos! Nunca tinha catado tantos! Esvazia seu conteúdo em cima da mesa e começa a contar, para se distrair, é a melhor da classe em aritmética. Um, dois, três... quando chega aos duzentos e trinta, pára. Ainda falta muito.

Devolve tudo ao balde. O barulho dos mariscos contra o alumínio coincide com o da chuva que, afinal, se despeja do céu. Coloca o balde sob uma goteira grossa e ele logo se enche de água. Esfrega os mariscos para tirar a areia e despeja a água por uma greta do chão. Repete a operação várias vezes, até que ficam bem limpos. Tem fome. Lembra-se do arroz de marisco de sua mãe, com massa de tomate e coentro. Hoje, será só marisco cru. Isso pode dar uma baita dor de barriga, sua mãe sempre diz. Sua mãe também diz que prestem atenção à maré. Ela se distraiu, por causa dos mariscos. Começou a catar e quanto mais catava, mais aparecia. Quando percebeu, estava na península. A maré ali é traiçoeira. Tarde demais para voltar.

A chuva não diminui. As goteiras se multiplicam; senta-se embaixo da mesa, pelo menos ficará mais abrigada. Que nada! Uma onda mais afoita se arremessa contra o chão da cabana e a encharca. Vira o banco, coloca-o sob a mesa e entra dentro dele. Acabou de inventar uma canoa. Não tem muita noção das horas, mas sabe que logo irá escurecer. Espia pela fenda no chão e leva um susto: falta pouco para o mar atingir as tábuas do assoalho. O banco... pode servir de barco? Não, a madeira é pesada demais, vai afundar. E a prancha da mesa? Pesada, igual ao banco. Minha Nossa Senhora, o que vou fazer? Começa a rezar, para todos os santos que protegem do mar e das tempestades. Reza e chora.

Agora está completa escuridão. Súbito, ela ouve um barulho de alguma coisa se quebrando; a cabana começa a se inclinar. Fica paralisada por alguns instantes, então entende o que aconteceu: uma das estacas de sustentação se quebrou. A cabana vai adernando, como um barco prestes a ir a pique; o banco com ela em cima, o cavalete e o tampo da mesa começam a escorregar em direção à parede. Ela salta dali o mais rápido que pode, enquanto o mar lentamente começa a penetrar na cabana. Por onde sair? A porta está obstruída pela água. No escuro, vê apenas o contorno das janelas. Avança até elas, apoiando-se nas paredes. Não dá para abrir, estão emperradas. Por fim, a porta cede à pressão da água, que agora entra aos borbotões. Sem pensar, abandona a ela seu corpo e chega flutuando até o teto. Agarra-se a uma das vigas e abre com os dedos convulsos um buraco na palha apodrecida. De repente, se vê a céu aberto. A chuva parou, o ar está cristalino e um manto de estrelas cobre tudo. É uma visão da eternidade, que dura apenas alguns segundos. A cabana cede em seguida, precipita-se nas águas escuras e é engolfada pelo mar.

***

Maria Christina de Mello Amorozo , depois de encerrada a carreira acadêmica como docente e pesquisadora da Universidade Estadual Paulista, dedica-se agora a ser aprendiz de escritora.

Maria Christina de Mello Amorozo
04/10/2018

 

 

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"Fiquei muito satisfeito com o conteúdo da Oficina. Minha experiência com escrita, agora vejo com maior clareza, era inteiramente prática ou intuitiva e, certamente, passível de ser substancialmente melhorada. Gostei muito da orientação obtida através da Oficina e, em particular, da tua avaliação do material dos desafios."

Décio Oliveira Elias,
Rio de Janeiro, RJ

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