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Presença

As portas do guarda-roupa escancaradas. A cama desfeita. Júlia inspeciona as muitas roupas nos cabides e as outras tantas largadas no chão do quarto. Já são sete horas – avisa o sino da catedral. No apartamento alugado com o dinheiro dos pais, de onde há dias não sai, a estudante respira uma atmosfera pesada, típica de casa e de alma fechadas, e coleciona desculpas variadas para explicar aos professores e à chefe a sua ausência.

Hoje, porém, nenhuma desculpa do seu arsenal pode ser usada. É aniversário de seu melhor amigo, Vicente, e ele planejou uma festa no apartamento que divide com o namorado. Vai ter comida, bebida, música... e pessoas. É tão difícil estar entre pessoas. Júlia sente que precisa sempre vestir uma máscara, esconder seus sentimentos. Afinal, pensa ela, quem é que gosta de conversar com uma pessoa deprimida?

Com Vicente ela consegue se abrir. Ele sabe das angústias que a atormentam e tenta ajudar como pode. Chama Júlia pra sair, envia vídeos engraçados, encontra psiquiatras e psicólogos na esperança de que ela marque uma consulta. Há semanas ele cobra sua presença. Mas sempre que Júlia pensa em abrir a porta do apartamento, seu peito aperta. As mensagens se acumulam no WhatsApp. Só o que quer é ficar sozinha.

Nem ela entende direito o que está acontecendo. Sempre foi extrovertida, comunicativa. Gostava de sair com os amigos e passar tempo com a família. O último semestre na faculdade chegou trazendo uma ansiedade inédita na vida de Júlia, e que aumentou quando seu noivo colocou fim ao relacionamento, no último mês. Estavam juntos há quatro anos. A escova de dentes dele ainda está no banheiro.

O celular vibra em cima da cama. Vicente está ansioso, quer saber que horas Júlia vai aparecer na festa. Na foto de perfil dele, ela se reconhece com dificuldade. Foi tirada na praia, no último verão. Os dois se abraçavam e riam, com o mar ao fundo. Olhando aqueles sorrisos, sente saudade de si mesma.

Aproveitando um segundo de ânimo, Júlia pega o vestido preto de sempre e o salto vermelho dos dias em que precisa se sentir mais longe do chão, ultimamente tão duro quanto a realidade. Só por hoje resolve deixar a tristeza em casa. A vida de Vicente merece ser celebrada. Quem sabe assim, comemorando as pessoas e coisas que valem a pena ser vividas, logo veja motivos para existir novamente.

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Letícia Pandolfo Cardoso nasceu em Porto Alegre em 1983. É professora de inglês, revisora de textos e tradutora. Formada em Jornalismo e Letras (Português/Inglês) pela PUCRS, é também mestra em Literaturas de Língua Estrangeira pela UFRGS. Apaixonada por séries, filmes, livros e gatos, acredita que escrever, assim como ler, é uma forma de terapia.

Letícia Pandolfo Cardoso
05/10/2018

 

 

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"Fiquei muito satisfeito com o conteúdo da Oficina. Minha experiência com escrita, agora vejo com maior clareza, era inteiramente prática ou intuitiva e, certamente, passível de ser substancialmente melhorada. Gostei muito da orientação obtida através da Oficina e, em particular, da tua avaliação do material dos desafios."

Décio Oliveira Elias,
Rio de Janeiro, RJ

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