Blog da Oficina

Um dia de sol

Abro a janela e vejo Dona Borboleta colorida voando de flor em flor, abelhas acumulando o néctar sobre suas perninhas frágeis e os beija-flores batendo suas asas sem que se consiga vê-los, parecem flutuar no ar.

Tudo brilha.

Mesmo assim tomo o café correndo e vou para a escola. Pego o ônibus cheio com minha mãe e desço. Que droga, seria tão melhor se eu pudesse brincar hoje!

Meus colegas me olham e nem me dizem bom dia, ainda bem que a Ciça é minha amiga e vem pulando me ver.

― Oi, e aí, você conversou com sua mãe? Vai poder ir na minha casa sábado?

― Não sei, eu falei, mas ela nem me ouviu, estava fazendo o jantar e cuidando do meu irmão que só sabe chorar.

― Oh Lila, vê logo isso aí, preciso de você para fazer brigadeiro e jogar vídeo game.

O sinal bate e vamos para a sala fria, a cadeira dura e eu louca de vontade de olhar para fora. Por que as nuvens voam? Quem sabe não daria para sentar nelas. Como eu gostaria de sair flutuando num tapete voador e ir para a Austrália brincar com cangurus. Eles são tão fofinhos! Eu iria com aquele moletom que tem um bolso grande na frente e brincaria de fazer de conta que era a mãe deles.

Me transporto para a Austrália, já estava lá quando ouvi alguém batendo. Era a professora com a mão na classe.

― Presta atenção!

Dei um pulo. Ouvi, baixinho, a risada dos colegas.

Olhei para o quadro, não entendi nada do que estava escrito e nem quis perguntar, pois sabia que eu deveria ter prestado atenção desde o início. Mas pra que serve aquilo? Eu gostaria que os números me levassem a construir uma nave espacial e ir para a galáxia de Desdron enfrentar os gogluns e libertar o povo de kat, seres parecidos com a gente só que com cara de gato. Os gogluns tem cara de pitbuls e vivem ameaçando o planeta deles.

O sinal toca para a próxima aula e Rebeca vem falar comigo.

― Oi Lila, comeu suas vinte rosquinhas hoje?

― Eu não como vinte rosquinhas.

― Ah, então devem ter sido os hambúrgueres. Olha, o seu uniforme vai estourar!

E daí elas começam a rir, cantar e dançar o funk.

― Uh gorduchinha, Uh gorduchinha, vem aqui, vem aqui pra entrar na linha, uh gorduchinha.

Isso eu ouvia todos os dias, aliás todo o tempo em que eu estava na escola. No início eu queria só chorar. Agora eu tento ignorar mesmo com um nó na garganta.

O sinal para o recreio toca, eu vou para o pátio, acompanhada da minha amiga.

― Vamos lá no bar pegar umas coxinhas, trouxe dinheiro?

― Sim vamos! Eu trouxe dinheiro e também o lanche de casa.

Depois do intervalo a aula segue até de tarde e eu querendo ir para casa, brincar um pouco, assistir TV ou simplesmente abraçar a minha mãe e ficar junto com ela e meu irmão lendo uma história, mas era segunda e depois da aula eu tinha inglês.

Segunda e quinta inglês, terça e sexta aula de canto, quartas e sábados reforço com a professora particular.

Minha mãe me pega no inglês, me dá um beijo, me pergunta se estou bem eu respondo que sim, não queria incomodar e deixar ela mais chateada, vi ela chorando escondida outro dia.

Ela chega em casa, deixa as compras sobre a mesa, coloca as roupas na máquina e me manda ir tomar banho, eu quero só ver se os kats irão vencer os gogluns e ouço um grito. Vai tomar banho que depois você tem que fazer o dever e jantar.

Mas vai acabar daqui a pouco, não vou.

Ela desliga a TV, ameaça o castigo.

Depois do banho e enquanto ela prepara o jantar eu me sento, coloco os cadernos e os livros sobre a mesa e não consigo entender muito bem os problemas de matemática que tenho de resolver. Aliás, aqueles não eram meus problemas, eram do professor e do livro, por que eu tenho de resolver isso?

Minha mãe para tudo e tenta me explicar, reclamando da escola.

― Mãe, eu posso ir na casa da Ciça?

― Se você se comportar até sexta pode.

― Posso dormir lá?

― Se você melhorar suas notas de matemática talvez um dia.

Quando termina a aula de reforço corro para a casa da Ciça, preparamos brigadeiros, pão de queijo e pipoca.

Não podemos ir no jardim, pular corda e nem tinha mais crianças além de nós para brincar de esconde-esconde.

Lá fora chove.

Aqui no meu peito uma vontade de sol.

Meto a colher no prato de brigadeiro.

Na boca, enquanto o chocolate se desmancha, sou feliz.

***

Ana Maria Bettini é paulistana, mas mora e trabalha em Porto Alegre/RS há mais de vinte anos. Formada em Artes Plásticas pela UFRGS e pós-graduada em Design de Superfície pela UNIRITTER. Foi bancária e professora de Artes, atualmente dedica-se exclusivamente a ilustrar e escrever livros para infância e adolescência. “O Gatinho Preto” foi seu livro de estreia, publicado pela editora Metamorfose em 2017.

Ana Maria Bettini
16/10/2018

 

 

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"Fiquei muito satisfeito com o conteúdo da Oficina. Minha experiência com escrita, agora vejo com maior clareza, era inteiramente prática ou intuitiva e, certamente, passível de ser substancialmente melhorada. Gostei muito da orientação obtida através da Oficina e, em particular, da tua avaliação do material dos desafios."

Décio Oliveira Elias,
Rio de Janeiro, RJ

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