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Não é engraçado?

A vida não é engraçada? – seu cérebro cansado repetia em looping infinito, ao mesmo tempo que um peso em seu estômago indicava que algo estava muito errado.

Fisicamente ela estava bem, se não contasse o suor frio, a arritmia e o choro compulsivo. Seu velho corpo sofria com as voltas de sua mente. Deitada na maca hospitalar, sendo carregada por corredores gelados, sentia a vibração das rodas em atrito com o chão e aquilo a mantinha conectada com a realidade. Estava em um hospital e outras dezenas (ou mais?) de pessoas também. E tudo era culpa dela e exclusivamente dela. A vida não era engraçada?

Seus filhos e netos a achavam velha, eles e seu marido riam de sua incapacidade de mexer em um celular ou mesmo em um simples controle remoto, mas comiam até explodir suas guloseimas e especialidades de domingo.

Ignoravam por completo sua miséria de alma.

Na manhã desse domingo, belo domingo, tinha decidido sair para nunca mais voltar. Seu erro foi ter deixado um bilhete, arremedo de desforra.

O parque estava na cidade, lhe trazendo um gosto de algodão doce na boca e uma ideia reconfortante. Andaria na montanha russa, roda gigante, autochoque e carrossel, comeria o que lhe desse vontade também, porque o amanhã não existiria.

Porém, o rapaz de jaleco ao seu lado dizia o contrário. Era o que ela merecia.

Tinha deixado a roda gigante por último, quando o vento em seu rosto e cabelos, o arrepio de felicidade, foram subitamente interrompidos por uma parada brusca. O banco oscilante se balançou ainda por um tempo, mas as rodas estavam imóveis. Ela, por sorte, parou no cume, não se importando de ficar olhando o mundo de lá enquanto a consertavam.

Mas não era um defeito no massivo brinquedo a causa da imobilidade.

Os tiros iniciaram na entrada do parque e a correria veio logo depois, corpos caiam por bala ou empurrados, ela não conseguiu distinguir de cima. Segurou a borda de seu banco com muita força, inclinando o corpo o máximo que ousava para tentar enxergar melhor. E os estampidos começaram a se aproximar e os gritos ficaram mais altos, mais próximos.

- Adéliaaaaaaaaa! – A voz inconfundível, seu torturador de uma vida inteira, quem só ela sabia ser psicopata. Ele não queria deixa-la descansar.

Ele agora se fora, mestre da dor em sua violência final.

Camille Abreu é gaúcha, advogada e mãe de adolescente. Tem a literatura como paixão, principalmente a fantástica.

Camille Abreu
20/10/2018

 

 

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DEPOIMENTOS

"Fiquei muito satisfeito com o conteúdo da Oficina. Minha experiência com escrita, agora vejo com maior clareza, era inteiramente prática ou intuitiva e, certamente, passível de ser substancialmente melhorada. Gostei muito da orientação obtida através da Oficina e, em particular, da tua avaliação do material dos desafios."

Décio Oliveira Elias,
Rio de Janeiro, RJ

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