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Marujos na tempestade

Havia um valão entre a calçada e a rua de terra vermelha. Nos dias de inverno, e até mesmo no verão, os fortes temporais transformavam as ruas em corredeiras vivas de água com chocolate. Naquele dia, nos contentamos em assistir da vidraça da janela tudo que descia rua abaixo. Inclusive aos moleques tomando banho de chuva.

Esbaldavam-se nos buracos mais fundos distribuídos na extensão da rua toda. Gostaríamos de estar lá também, sem a preocupação de pegar uma doença naquelas águas sujas. Eles, munidos de anticorpos, com isto nem se preocupavam. Os relâmpagos se repetiam, um atrás do outro, e eles nada de terem medo. A felicidade de se banharem naquele rio faz de conta, lavando a alma na fartura de água. E nós ali, carentes de brincadeiras.

Nossa casa, construída em terreno acidentado, ficava abaixo de um barranco vermelho. Não éramos imunes às chuvas. Na rua, descia outra cascata de água barrenta por dentro do terreno inclinado na direção da nossa casa. Descia do barranco bem na direção da porta dos fundos. Mesmo com uma valeta cavada para desviar a água da chuva, não dava conta de escoar tudo.

Acontecia de o barro vermelho invadir por debaixo da porta e inundar a casa toda. Enquanto o temporal continuava intenso, colocamos panos embaixo do vão da porta tentando diminuir a entrada do barro. As vassouras faziam o serviço de empurrar água para fora pela porta da frente. Trabalho árduo que não resolvia em nada, só tentando não deixar o nível da enxurrada alcançar os móveis. Empurrávamos para a rua o lodo e fechávamos a porta, até precisar escoar novamente.

Trabalho de tirar água do barco com um baldinho. Aliás, vários baldinhos se revezavam depois de torcer trapos e enchê-los até a borda.

Nós nos divertíamos e a mãe nos acompanhava, criando histórias.

“Peguem baldes e vassouras, marujos, e vamos trabalhar! Mãos à obra ou morrerão de fome, na despensa só temos batatas!”

A tempestade não cessava, esvaziávamos o barco para não afundar.

“Temos que atravessar a tempestade – comandava a capitã – voz firme, com sua espada, levando a tripulação pra frente.”

Ventania da popa à proa sacudindo as portas, batendo as escotilhas.

A tripulação exaurida, a barriga roncando pedia um pouco de alimento.

“Comerão quando acalmar a tormenta, grita a capitã.”

Os trovões, a cada vez mais espaçados, a chuva vai se afastando, a embarcação já não sacode tanto. O brilho dos raios mostra a expressão de nossos rostinhos. Agora já vão serenando, olhos fixos no chão alagado. Abrimos a porta e, com vassouras em punho, reiniciamos a limpeza do convés. A luz não voltou, mas inicia-se uma nova faxina. Torcemos os panos e passamos outra vez a vassoura de um lado para outro.

Os mais destemidos saem a buscar pão. A mãe põe água para ferver, vai sair café quentinho e pão com manteiga.

Todos estão descalços no chão de piso molhado, as roupas molhadas, sentem frio. Quando acaba a tarefa seguem para o banho quente, trocam de roupa e vão para a mesa. Os marujos passam suas xícaras e a mãe serve o café fumegando. A manteiga derretendo no pão.

***

Luzia Regina Camargo é jornalista graduada pela UFRGS e funcionária pública aposentada. Nasceu em Porto Alegre em uma família de dez irmãos em bairro da periferia.

Luzia Regina Camargo
06/11/2018

 

 

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Décio Oliveira Elias,
Rio de Janeiro, RJ

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