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O Intruso

Afonso fechou a porta do apartamento e iniciou seu já habitual roteiro de passar as duas trancas, retirar os sapatos no capacho, afrouxar o cinto e abrir os dois primeiros botões da camisa. Ele tinha consciência de que mesmo os movimentos das mãos eram sempre idênticos, mas a fase de sua vida em que se preocupara com isso havia passado.

Ao sair do corredor da entrada, onde deixara os sapatos alinhados ao batente da porta, chegou até a mesa da pequena sala conjugada, na qual ficava o computador. Desde que Beth pedira o divórcio há três dias, avisando que ia morar sozinha, Afonso tinha todos os cômodos à sua disposição para mantê-los como bem entendesse.

O casamento durou tanto quanto a paciência dela com as manias dele permitiu. Ele resolveu deixar de tomar seus remédios quando ela informou que faria as malas para sair. Sem ninguém o atormentando, poderia fazer as coisas como bem quisesse.

Naquela noite, porém, nem tudo estava como queria. Havia uma mácula em sua organização impecável: a caixa de seu óculos estava desalinhada com o restante da mesa. Era grotesco, um ataque ao bom-senso. Aquilo causou dupla repulsa em Afonso, pois se a caixa estava fora do lugar, alguém mexera nela. E ele morava sozinho.

Sentindo um suor frio brotar em sua testa, dirigiu-se à cozinha, muniu-se de uma faca grande de churrasco e colocou-se a vasculhar os cômodos. Um a um, passou acendendo as luzes com a faca empunhada, esperando a qualquer momento ser surpreendido.

O último cômodo era seu quarto, que estava com a porta fechada, como sempre. Acendeu as luzes e vasculhou todos os cantos, sob a cama, dentro do armário vazio em que Beth guardava suas coisas e também atrás da porta. Não havia ninguém.

Após fechar a porta do quarto, voltou para a sala e examinou mais uma vez a caixa de óculos sobre a mesa. Comparou sob diversos ângulos com a ideia perfeita de harmonia que havia em sua mente e sossegou. Havia sido um erro. A caixa estava do mesmo jeito que deveria estar, perfeitamente alinhada com o canto esquerdo superior do móvel.

Ao acender a luz do banheiro para tomar um banho, viu que o piso do boxe estava levemente torto no chão, do jeito que a esposa deixava. Ele jurava que ela fazia aquilo apenas para irritá-lo. Pensou que deveria ter ficado daquele jeito, sem ter percebido, todos aqueles dias.

Abaixou-se para arrumar aquela aberração simétrica e, ao olhar para o espelho do banheiro, viu a si mesmo no reflexo, ensanguentado, segurando a faca de churrasco. Com o susto, deu alguns passos para trás e caiu sobre o corpo de Beth que jazia inerte no chão, com as malas da mudança de três dias atrás prontas.

***

Rafael Priviero D`Abruzzo é escritor, advogado e leitor voraz de diversos estilos literários. Com apenas um conto publicado no Wattpad até o momento e autor de tantas outras histórias engavetadas, está terminando a edição de seu primeiro romance.

Rafael Priviero D`Abruzzo
31/01/2019

 

 

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"Fiquei muito satisfeito com o conteúdo da Oficina. Minha experiência com escrita, agora vejo com maior clareza, era inteiramente prática ou intuitiva e, certamente, passível de ser substancialmente melhorada. Gostei muito da orientação obtida através da Oficina e, em particular, da tua avaliação do material dos desafios."

Décio Oliveira Elias,
Rio de Janeiro, RJ

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