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Camiseta Molhada

— Bom dia, professora.

— Bom dia, Eduardo. Como está?

A professora Dulce vinha com pressa de uma extremidade da calçada, o aluno de outra, encontraram-se diante do portão da escola.

— Atrasado, hein? – brincou a mestra, colocando o braço direito sobre os ombros do menino.

— É, quase perdi a hora.

— Sua camiseta está molhada!

— Eu mesmo lavei, professora, só tenho uma.

— Mas você não pode ficar assim, é capaz de ficar doente.

— Mas embaixo eu tenho outra seca, professora.

Dulce vai à sala da diretora, enquanto o menino dispara em direção ao pátio, no momento em que o sinal retine.

— Entre, Eduardo – diz a diretora com surpreendente amabilidade. — Toma, camiseta pra você. Troque ali no banheiro.

— Brigado, diretora.

— Tomou café?

— Ainda não. Meus pais saem cedo, nem comem.

— Você fica sozinho em casa?

— Sim, senhora. Às vezes não escuto o despertador, perco a hora.

— Tome café, coma o sanduíche.

No intervalo das aulas, diretora e professora num canto da Sala dos Professores.

— Os pais dele fazem o quê?

— São catadores de material reciclável. O uniforme foi doado pela escola, se lembra? A família é muito pobre. Segundo os comentários, dormem todos no meio de papéis velhos, não dispõe de chuveiro, o coitado exala um odor insuportável, nenhum coleguinha quer sentar perto dele.

— O perfil de boa parcela dos nossos alunos.

— Quando os pais foram chamados para explicar os atrasos e faltas costumeiras do filho, a mãe contou que saía cedo pra trabalhar e o pai o trazia pra escola. Quando, porém, o filho se queixava de cansaço, ele o mandava de volta pra cama, onde a mãe o encontrava na hora do almoço, com uniforme e até a mochila nas costas...

A campainha, insensível, pragmática, chama para o reinício das aulas.

***

César Augusto Ribas Sovinski nasceu em Bocaiúva do Sul, Paraná, tem 67 anos e é casado com a professora Walkíria Amélia, companheira e incentivadora. É formado em Letras pelo Centro Universitário Claretiano, Curitiba. Publicou pelo Clube de Autores Crônicas Que A Vida Escreve, A Vida Pela Vida, e Cinco Anos Passam Depressa, memórias do internato, quando criança.

César Sovinski
21/02/2019

 

 

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"Fiquei muito satisfeito com o conteúdo da Oficina. Minha experiência com escrita, agora vejo com maior clareza, era inteiramente prática ou intuitiva e, certamente, passível de ser substancialmente melhorada. Gostei muito da orientação obtida através da Oficina e, em particular, da tua avaliação do material dos desafios."

Décio Oliveira Elias,
Rio de Janeiro, RJ

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