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E se ele escapasse?

E se ele escapasse? Será que me delataria?

Nunca quis prendê-lo, em primeiro lugar. A culpa foi dele. Surgiu de repente em minha vida, me pegou desprevenida, me torturou. Não tive outra escolha senão enclausurá-lo. Agora ele briga, grita, quer sair. Tenho dó, mas sei que não posso soltá-lo. Ele me teria na mão, trocaríamos de papel e eu seria a prisioneira! Nem pensar.

Lembro quando o conheci. Meu olhar foi atraído como um ímã para aqueles olhos castanhos. Era recém-chegado no prédio, carregava uma caixa no elevador. Sorriu para mim, sorri de volta. Nada de mais. Esqueci um documento no apartamento e voltei para buscar. No elevador, mais uma vez, carregava outra caixa. Sorri para ele, sorriu de volta para mim. Nada de mais. Exceto pelo aperto no meu peito e a mão gélida invisível que segurava minha garganta.

Nunca acreditei em amor à primeira vista. Trinta e quatro anos e nunca me apaixonei, não seria agora. Não seria num elevador minúsculo, por um cara desconhecido.

Alguns dias depois, o vi na garagem, arrumando algumas coisas no porta-malas. Dentro do carro, uma mulher muito mais bonita do que eu, talvez até mais jovem, imersa na tela de seu celular. Talvez fosse uma irmã, ou uma amiga.

A verdade me sobreveio mais tarde naquele mesmo dia, de novo no fatídico elevador, como se fosse o epicentro de toda uma catástrofe. Ele segurou a porta para mim e procurei aquele brilho dourado em sua mão. Encontrei e senti meu corpo pesar, as pernas tremerem e umas gotículas de suor frio brotarem em minha testa.

Casado. Que merda.

O elevador subiu, parou no meu andar e entrei em casa. Não trocamos palavra.

Seria isso toda vez agora? Corria o risco de todos os dias entrar naquela caixa de metal, vê-lo e sentir o aperto no coração? Seria obrigada a seguir como se estivesse tudo bem?

Desde então ele está aqui, preso, querendo sair. Não, não posso soltá-lo, com certeza me denunciaria. Talvez se eu o mantiver preso por tempo suficiente, sem alimentá-lo, ele morra e me deixe em paz.

Por ora, precisamos conviver. Devo ser forte, mostrar quem manda. Se eu mostrar fraqueza, talvez ele consiga se soltar. Pobrezinho, fico de verdade com pena. Talvez se eu apenas deixasse ele sair para tomar um ar...

Não, não posso soltá-lo nem por um único minuto. Ele me entregaria.

Droga, talvez ele consiga se soltar algum dia, sem eu perceber. Aí, estaria tudo acabado de toda forma.

Preciso matá-lo. Isso! Este cárcere é arriscado demais. Ninguém pode saber que o mantenho aqui. É o único jeito.

Ele grita, eu grito mais alto e, por fim, vem o silêncio.

***

Rafael Priviero D`Abruzzo é escritor e leitor voraz de diversos estilos literários. Com alguns contos publicados e autor de tantas outras histórias engavetadas, está terminando a edição de seu primeiro romance.

Rafael Priviero D`Abruzzo
14/03/2019

 

 

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"Fiquei muito satisfeito com o conteúdo da Oficina. Minha experiência com escrita, agora vejo com maior clareza, era inteiramente prática ou intuitiva e, certamente, passível de ser substancialmente melhorada. Gostei muito da orientação obtida através da Oficina e, em particular, da tua avaliação do material dos desafios."

Décio Oliveira Elias,
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