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Amanhã é dia dos pais

Desde moleque Otávio insiste em saber do pai. Faz da vida da mãe um inferno. Quem é ele? Onde está? Qual o nome? Por que não o procura? Para todas estas perguntas, a resposta da mãe não varia: Teu pai é um traste, não vale nada. Tu não precisa dele. E assim dá por encerrado o interrogatório. A urgência da mãe se concentra em trabalhar para sobreviver, o resto não passa de frescura. Não tem tempo para questões do coração.

Mas Otávio consegue ser mais duro que a mãe. Com o passar dos anos vai arrancando dela algumas informações. Desta forma, aos dezesseis anos, Otávio sabe o nome completo, a profissão e o local de trabalho do pai. Falta agora um tanto de coragem para dar o primeiro passo na sua busca.

Um dia a mãe o surpreende. Aguardam uma sinaleira para atravessarem a rua e, sem mais nem menos, ela despeja:

− Tá vendo ali o carro preto? Teu pai é aquele na direção.

Boca aberta e olhos esbugalhados, Otávio encara o sujeito. Com poucas certezas vê-se naquele rosto alheio a sua presença tão próxima. Olha o modelo e a placa sem conseguir ver mais nada. O carro arranca e leva com ele o pai recém conhecido. Pega papel e caneta na mochila e anota os números memorizados. A mãe de canto de olho observa. O silêncio é companhia o resto do caminho.

Desde então Otávio não pensa em outra coisa. Checa na internet o local de trabalho do pai e vai atrás do endereço. Fica esperando em frente ao prédio da empresa de água da cidade. Não demora vê o pai saindo pelo portão do estacionamento.

Três dias depois está acompanhado do primo em frente ao prédio. Desta vez de carro, quer saber onde o pai mora. O primo faz o preço, quer o combustível a ser usado. Otávio aceita. Acaba de receber uma semana de trabalho como ajudante de pedreiro, sua profissão após largar a escola no final do curso fundamental.

No inicio de agosto daquele ano Otávio já conhece bem a rotina do pai. Mora sozinho numa casa modesta de subúrbio. Todo dia, depois do trabalho, para numa padaria na esquina de sua casa, sai com um saco de pão e uma garrafa de cachaça, depois estaciona o carro em frente à residência. As luzes ficam acesas até perto da meia noite, quando a escuridão manda embora os sonhos do rapaz.

Logo chega o sábado antes do Dia dos Pais. Otávio trabalha até ao meio dia. Chega em casa, almoça com a mãe sem falar de seu plano. Toma banho, veste sua melhor roupa e sai. No ônibus, vai batendo as mãos geladas nas pernas dobradas junto ao banco. Na sua cabeça, pensamentos em revolução. Na parada pula para fora do coletivo como quem se atira num precipício.

Ainda com sol alto, passa pelo carro preto e entra pelo portão. Pouco decidido toca a campainha. Horas se passam no tempo de poucos segundos. A porta se abre mostrando ao dono da casa um rosto vagamente conhecido. Ficam os dois se medindo com os olhos até o homem indagar:

− O que o rapaz procura?

− Procurei por muito tempo. Agora encontrei. Sou seu filho. Anita é minha mãe. Lembra dela?

Como o homem nada fala, Otávio prossegue:

− O senhor é meu pai.

− Pai? Tá enganado, guri. Não tenho filho nenhum. Nem sei quem é essa Anita.

Diz assim, com uma dureza de palavras jogadas na cara do rapaz e bate a porta. O vento lambe o rosto de Otávio, atiça uma tempestade dentro de seus olhos. Raios e trovões, mas nenhuma gota de chuva. Vira o corpo tenso e segue para fora do portão sem olhar para trás.

Já tinha passado pelo carro quando resolve voltar. Junta uma pedra na rua, abaixa-se em frente à porta do motorista e começa a riscar com força a lataria do Corsa. Serviço feito levanta e guarda a pedra no bolso. Sai assobiando em direção à parada do ônibus. A mãe tem razão, não vale a pena. Melhor guardar no peito a secura do sertão em terra rachada de tanto não ter.

No outro dia o homem se dirige ao carro para sair. É quando percebe a porta do motorista toda riscada. Começa a gritar:

− Que filho da puta fez isto?

Então percebe um alinhamento nos riscos, dizem alguma coisa. Lê: “Feliz Dia dos Pais”. Sente o corpo se dobrar até chegar ao chão. Fica ali sentado, pensa no pai nunca visto.


***

Martha Helena Xavier é graduada como enfermeira pela UNISINOS, servidora pública da PMPA,aposentada. A escrita sempre perambulou pela sua vida sem maiores pretensões. Em 2018 fez uma oficina de crônicas na Metamorfose e atualmente é aluna do curso de formação de escritores na mesma escola. Participa do Curso Livre de Formação de Escritores da Editora Metamorfose.


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Marta Helena Xavier
10/08/2019

 

 

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"Fiquei muito satisfeito com o conteúdo da Oficina. Minha experiência com escrita, agora vejo com maior clareza, era inteiramente prática ou intuitiva e, certamente, passível de ser substancialmente melhorada. Gostei muito da orientação obtida através da Oficina e, em particular, da tua avaliação do material dos desafios."

Décio Oliveira Elias,
Rio de Janeiro, RJ

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