Blog da Oficina

A menina da fotografia

Para Sebastião Salgado


Havia me esquecido de um tempo da minha vida em que tudo era muito difícil. Mas aquela imagem me transportou para o passado, contra a minha vontade, claro, porque voltar não fazia parte dos meus planos, ainda mais a um período da minha vida que sempre fiz questão de esquecer. Entrei na galeria por causa da Luísa. Ela havia falado da exposição durante toda a semana anterior, e eu queria demonstrar alguma aproximação com o que ela fazia.

Não entendia nem gostava de fotografias, ainda por cima em preto e branco. Além disso, tinha que ouvir gente de nariz empinado falando um monte de bobagens e tirando conclusões cada uma diferente da outra. Eu, que já não entendia nada do assunto, ficava ainda mais perdido. Nunca fui dado a esse tipo de coisas, mas tinha adoração por Luísa. Então fui lá me meter com aquela gente, fingindo admirar aquelas coisas todas. Ficava um bom tempo olhando, observando, como os outros faziam. Mas eu ficava calado. Se chegava um grupo perto de mim, me afastava e procurava outra fotografia onde eu pudesse, novamente, passar por entusiasmado apreciador. No fundo, meus olhos circulavam pelo salão à procura de Luísa.

Ela era estudante de Artes e trabalhava com fotografia, vivia metida nesses lugares, era parte do seu trabalho e também do curso. Falava até em largar tudo e ir embora por causa disso. Queria viajar, visitar países distantes, lugares estranhos nos confins do mundo. Eu pensava o tempo todo que ela ia me deixar. Isso me transtornava e fazia eu me curvar diante dela.

Eu a vi de longe, com uma turma, mas não quis me aproximar. Quando ela me viu, abriu um sorriso e veio ao meu encontro, me pegou pelo braço e me arrastou, cabeça erguida, olhando para um e outro lado, até chegarmos onde estavam seus amigos. Foi logo me apresentando, coisa que menos gosto. Aos poucos, o grupo foi se dispersando e seguimos pelo salão parando aqui e ali. Eu lá, ao lado dela, como um cego, seguindo seus passos sem entender nada, seus olhos como guia. Ela ia me mostrando detalhes, explicando, mas aquilo tudo entrava num ouvido e saía por outro sem o menor efeito, a não ser o cansaço e um indisfarçável mau humor. Luísa segurava minha mão e me conduzia pela sala, até que me deparei com um par de olhos num rosto triste e com aparência de maus tratos.

Era uma criança. Estanquei o passo como se impedido por um obstáculo qualquer, uma parede de vidro temperado, um sinal vermelho. Luísa até se assustou. Parei e fiquei olhando aquele rosto de criança pobre. Manchas na pele, terra, carvão, graxa ou óleo, resíduos de um trabalho qualquer. Os cabelos desgrenhados e visivelmente sem brilho. Mas os olhos, ah, aqueles olhos eram de uma nitidez reveladora, uma luz, uma força a me levar de volta a um tempo de minha vida em que tudo era muito difícil, e por isso eu insistia em esquecer. Fiquei por um tempo fitando aqueles olhos. Embora infantis, pareciam carregar séculos de sofrimento. Luísa percebeu meu espanto e veio me acudir “Gostou?”. E antes que ela falasse mais alguma coisa, levantei um pouco a mão e fiz um sinal para esperar. Fiquei por mais alguns instantes observando a fotografia daqueles olhos, ou melhor, os olhos daquela fotografia. Foi o tempo suficiente para uma viagem. Passei por lugares e pessoas que já havia esquecido, por situações incômodas que pensei não rever nunca mais, nem em pensamento. Mas aquele olhar foi me rasgando o corpo, me expondo as vísceras e, como num pesadelo, vi saltando de dentro de mim, borbulhando como um sangue quente, os olhos famintos da menina da fotografia.

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José Vecchi de Carvalho, mineiro de Cataguases, formado em Letras pela Universidade Federal de Viçosa. Tem contos publicados na e-zine literária “Chicos”, em coletâneas de concursos literários, na coletânea Metamorfoses do Amor, editora Metamorfose e no site “Escrita Criativa”. Participou das oficinas “Criação Literária” e “Oficina do Livro” promovidas pela Metamorfose Cursos Online e “Escritor profissional” promovida pelo Carreira Literária. Publicou “A casa da rua Alferes e outras crônicas” (autopublicação, coautoria, 2006); e Duas cruzes (contos, editora Kazuá, SP, 2018). Participou da FLIP 2018 (Mesa “Onde mais houver poesia”, Casa Philos) e do 3º Encontro Literário “#Caiu na rede é cultura”, Céu Caminho do Mar, São Paulo, outubro 2018.

José Vecchi de Carvalho
19/08/2019

 

 

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