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O homem traído

Era domingo. De banho tomado, coloquei a melhor roupa, me perfumei com aroma dos bons - e encilhei meu pingo para assistir um fandango. Na mente trazia um único pensamento: dançar até o dia clarear. Talvez arranjasse uma companheira, mas parecia estar de azar neste quesito. Sempre soube dançar bem e não era dos mais feios do local. O sol começava a se esconder por trás do horizonte e o fandango era longe.

Mal anoiteceu, montei no cavalo e saí a galope estrada a fora. Calculava, comigo mesmo, que ia chegar antes das oito horas, senão fosse o inusitado. Meu tordilho era bom de patas, e noutra época cheguei até apostar carreira com ele. E sem querer me gabar sempre ganhei a corrida.

Olhei o céu estrelado, lua minguante. A escuridão cegava minha visão. No trajeto, ouvi um barulho estranho, o cavalo quis recuar e senti um frio na espinha. Coisa que nunca havia sentido. Meu cabelo arrepiou, notei que não estava sozinho. Açoitei o tordilho com meu rebenque para que andasse mais depressa. Ele se assustou e corcoveando me jogou no chão. Por azar caí numa poça d’água, sujando minha roupa de lama. Levantei a ponto de surrar ainda mais o cavalo pelo o acontecido, mas me deparei com um estouro. Santo Deus, minhas pernas tremiam como vara verde ao sabor do vento. Não sabia se corria, se dava volta ou se prosseguia. A essas alturas o meu tordilho fugiu assustado me deixando só na noite escura. Tomei coragem para perguntar quem estava ali, mas não obtive resposta. O jeito era voltar para casa a pé, porém sabia que estava muito longe. O cavalo sumiu e não tinha como procurar no meio da escuridão. A vegetação à beira da estrada se mexia como se alguém estivesse pisando nela. Perguntei mais uma vez se tinha alguém ali, mas nada. No meu peito o coração batia acelerado. Cheguei a sentir a presença da morte vindo: um infarto, um ataque cardíaco. Tudo pelo medo.

Animado com o baile, esqueci de pegar uma lanterna. Pensei em tudo, menos nisso. Que desgraça! Eu não sabia nem as horas. O tempo passando, e eu ali. Meu pensamento de dançar não era mais importante. Queria voltar para casa, no entanto alguma coisa me paralisava. Minhas pernas permaneciam imóveis, sem ação. Por onde andava meu tordilho? Ele sempre foi manso. O que tinha acontecido para fugir dessa maneira? Sentei no barranco da estrada. À minha volta nada se avistava. O céu sim, povoado de estrelas como uma cidade iluminada. Senti um vulto passar por trás de mim, meu corpo parecia ter levado um choque elétrico.

Quando acordei, o sol brilhava no céu. Olhei para um lado e avistei meu tordilho pastando. Minha bombacha suja de lama. O que aconteceu? Perdi o baile?

Montei no cavalo e segui para casa. Não ia contar nada para ninguém, porque nunca fui medroso. Quando meu primo viu minha bombacha suja me perguntou se o homem traído tinha me derrubado do tordilho. Só aí, fiquei sabendo do homem traído pela mulher que se enforcou por aquelas bandas.

Meu primo falou que corria o ano de 1977 quando o caso ocorreu. O nome dele era Rufino. Pequeno agricultor da região: plantava milho, feijão entre outras coisas. Quando solteiro, devido a timidez ficava isolado das festas e bailes. Sua vida era de trabalho. Lavrava a terra e semeava sua semente para mais tarde, na época de fazer a colheita vender seu produto. Para satisfazer suas necessidades sexuais procurava mulheres em uma casa noturna da pequena cidade. Foi numa dessas idas que conheceu Brenda, uma ruivinha de olhos claros, de dezenove anos. Depois de vários encontros, ele resolveu convidá-la para morarem juntos. Ela ansiosa por deixar a vida que levava, aceitou. Rufino construiu um lar modesto, mas cheio de amor. Brenda havia jurado que nunca mais ia se prostituir. O tempo foi passando, novas plantações. Para ajudar na capina contratou Josino, filho de um compadre seu. O rapaz tinha dezessete anos, mas representava mais idade por ser corpulento. E como morava distante dali, almoçava e às vezes, pousava na casa de Rufino. Ajudava em diversas tarefas, como cortar lenha e trazer as vacas leiteiras para mangueira. Jovem ainda, despertava desejo ardente pela mulher do outro, mas procurava ocultar de muitas maneiras.

Rufino tinha seus trinta e sete anos. Apesar de não ser velho, devido o cansaço da lida algumas vezes não procurava Brenda como devia.

Foi naquela tarde de dezembro que ele montou no seu cavalo para ir à cidade buscar mercadorias: açúcar, sal, farinha, massa e erva-mate. A trotezito pela estrada, enfiou a mão no bolso da bombacha, pensando que tinha esquecido algo. E tinha. O dinheiro para pagar as compras. Já tinha andado meia hora, estava quase perto da cidade quando lembrou. O dinheiro havia ficado no bolso do casaco. Foi obrigado a voltar mais veloz do que ia.

Se havia levado meia hora antes, agora fazia o trajeto em menos de vinte minutos.

Entrou apressado na casa, mas antes de ir para o quarto, ouviu gemidos. Andou lentamente. E a cena que viu foi cruciante. Seguiu em direção ao galpão com coração aflito, cheio de dor. Não brigou, nem acusou. Em silêncio apanhou uma corda, saiu para mato e fez o que fez.

***

José Heitor Madrid Fonseca, ou José Heitor Fonseca, como é conhecido, nasceu em Caçapava do Sul – RS aos 14 de Setembro de 1964, filho de Heitor Mozart Fonseca e Maria Ibraima Madrid Fonseca. Escritor, poeta, cordelista, letrista (Letras de músicas), entre outras atividades. É membro da AGPC – Academia Gaúcha dos Poetas de Cordel. Foi candidato a vereador na sua cidade por duas vezes, em: 2004 e 2016. Tem participado de diversas Antologias com outros autores. Criador do “Projeto Cordel no Pampa”, com a intenção de divulgar a literatura de cordel no Sul do País. Tem várias obras publicadas. O poema: ‘O Bandoneon Ficou Mudo’ virou letra de música pelo Grupo Cambonaço, de Caçapava do Sul, e foi regravada em nova versão por Carlinhos do Acordeom.

José Heitor Madrid Fonseca
27/08/2019

 

 

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Décio Oliveira Elias,
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