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A casa amarelada

A chácara da família foi comprada com uma casa de madeira. Era um sobrado. A tinta amarelada era como um anúncio do tempo. A construção parecia estar ali de olhos bem abertos na escuridão. Na época, já havia uma nova casa quase pronta, no galpão uma churrascada. Crianças e risadas soltas. Era final de outubro, o calor brindando o dia.

Elas faziam planos para as férias de verão. Banhos de açude e de mangueira, piquenique debaixo das árvores. Lúcia e Sílvia tinham a mesma idade, primas e amigas saboreando o campo. Bicicletas, bolas e bonecas. E aquela casa ali, parada.

Noite de sábado, todos cansados, deitados do jeito que dava. Colchonetes e sacos de dormir por todo o canto, a única cama ficou para os avós. As meninas, olhos esbugalhados, lembravam de ter ouvido um chamado quando passaram pela casa de madeira. Lúcia não comentava, e Sílvia olhava para a prima esperando que o silêncio desse a brecha.

Quando só a bruma do sono dava sinal, Sílvia cutucou Lúcia. A menina não queria, mas foi com a prima. Andavam com a lanterna do celular ligada, tentando não fazer barulho. Sair de casa até que foi fácil, mas andar até a velha construção exigiu das meninas, e muito.

A grama roçava na pele, o vento sussurrava. Quanto mais as primas se aproximavam da casa amarelada, mais os barulhos se multiplicavam. Quando chegaram, a porta já estava aberta, o convite pronto e elas entraram. Lúcia entrou na casa junto com a prima Sílvia. Ao pisarem nas tábuas, uma música estranha começou, rangiam o chão e as janelas. A escuridão quebrada pelas lanternas fazia a casa parecer aconchegante e, tirando os diferentes sons que enchiam o lugar, nada mais estava ali.

No que fora a sala, nenhuma cadeira. No lugar da cozinha, um balcão sem gavetas ou portas. O ar úmido e empoeirado começou a incomodar. Havia mais, um cheiro muito forte, horrível. Um espirro e bum: as meninas ouviram algo que parecia ter caído no andar de cima.

Sílvia divertia-se com o horror estampado no olhar da outra, como se o medo fosse só privilégio dela. Dentro da casa habitavam corujas e sabe lá o que mais, ela disse. Uma fresta na janela mostrou uma sombra volumosa, talvez um tapete esquecido no canto da sala. O odor velho e pesado não clamava por visita. Mas e aquele chamado?

Seguiram pela escada e os degraus rangiam. O corrimão estava quebrado e a lanterna mostrava que o andar superior não parecia em melhor estado. Avistaram três portas, a primeira era de um quarto grande e as marcas no piso ilustravam o antigo local dos móveis. Quando entraram na segunda porta, o quarto era bem menor e lá nada havia. Talvez não tivesse sido um dormitório.

Na abertura da terceira porta as meninas provaram o sabor do medo. O voo dos morcegos jogou as duas no chão. Ali era um banheiro, no piso havia uma coisa pegajosa, de um vermelho carne. O medo tornou-se grito e paralisou as duas.

Quando estavam quase na escada, ouviram a voz chamando. As duas viraram, foram puxadas e começaram a gritar. Mas o som não saía, era um apelo mudo. Uma segurando na outra e aquela força impedindo que corressem.

O barulho foi tanto que os adultos estranharam, especialmente quando perceberam a falta das meninas. Quando começaram a chamar, a força que as puxava cedeu e elas fugiram.

Nem erguer uma casa nova naquele mesmo lugar pôde desmanchar aquilo que a antiga casa construiu nas primas.


***

Liz Quintana é designer e ilustradora. Durante 14 anos, atuou como docente na graduação, especialização e também no mestrado em Design. Atuou também como pesquisadora e na gestão dos cursos de Design do UniRitter. Na ESPM Sul atuou como docente na graduação em Design e na especialização. Gosta de perceber no desenho, leitura e escrita o encontro do ficcional e suas múltiplas possibilidades. Atualmente é aluna do Curso Livre de Formação de Escritores da Metamorfose e tem no fazer literário o espaço certo para o imaginário de seus projetos e ilustrações. Participou do Curso Livre de Formação de Escritores da Editora Metamorfose.


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Liz Quintana
27/10/2019

 

 

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Décio Oliveira Elias,
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