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Primeiro Haloween

Elisa olhou para as crianças correndo em grupos, na rua do condomínio fechado onde morava. Todos fantasiados para o Haloween. Estava grávida e sentou-se na escada com uma caixa cheia de chocolates para distribuir. Olhou para a lua cheia pensativa, a árvore grande da vizinha parecia mais escura naquela noite, os galhos estendiam-se agressivos sobre a rua, um vento leve arrepiou a sua pele. Lembrou do seu primeiro Haloween.

Sua avó, uma inglesa que migrara para o Brasil durante a Segunda Guerra Mundial, fazia aniversário no dia 31 de outubro. Um reforçado café da tarde sempre era servido para as crianças, a noite era reservada aos adultos. Os maiores não entendiam e provocavam com perguntas à avó, mas ela nunca explicava o porquê? A casa era antiga e ficavam todos os primos acampados no mesmo quarto, acordavam em suas casas no outro dia, parecia magia.

Com oito anos, ela decidiu, com seus primos Léo e Marli, que iriam descobrir por que eram excluídos da festa noturna da avó, pois a família ficava reunida nos natais, nas viradas de ano e nos aniversários até tarde da noite, mas a festa da avó era diferente. A tia Josi e Maria ficavam encarregadas de controlar o sono das crianças. Fingindo dormir, descobriram que as tias sumiam depois que viam todos no sétimo sonho da noite.

Pé ante pé, desceram a escada que rangia. Estava escuro, ouviam-se risadas e canções no pátio dos fundos. Léo deu um grito abafado quando viu sobre o sofá uma máscara branca cheia de manchas de sangue, mas foi puxado pelas duas que o levaram, trêmulo, pela porta da frente até o jardim, rodearam a casa e esconderam-se atrás de um pé de hortênsias.

Esconderijo perfeito, olhares apavorados. Os adultos estavam todos fantasiados e mascarados, alguns dançavam ao redor de uma fogueira, outros comiam petiscos numa grande mesa improvisada com tábuas e toda enfeitada com abóboras recortadas com boca, nariz e olhos, dentro das quais se via sair fogo. Falavam alto e alguns cantavam canções em uma língua que eles não entendiam. Cochicharam sobre o que viam, parecia mais com um encontro de bruxos e bruxas do que a festa de aniversário da avó.

Marli sugeriu que poderiam chegar mais perto se seguissem ladeando o muro. Mesmo com medo, a ideia foi aceita, mas ao se virar para seguir a aventura, depararam-se com a morte. A morte de preto com uma máscara de caveira. Era o pai de Elisa, ela descobriu enquanto ouvia o sermão por terem se infiltrado na festa dos adultos.

No dia seguinte foram chamados pela avó, que contou uma longa história sobre Haloween, de onde vinha a tradição e os costumes de festejar essa data que casualmente coincidia com o seu aniversário. Ficaram encantados e prometeram não contar aos menores, pois a avó falou que poderiam participar da próxima festa, fantasiados.

Elisa afagou sua barriga de grávida e pensou com carinho na avó. Quem sabe o neném não nasceria no mesmo dia da sua vó?


***

Artista Plástica e escritora - Formada em Desenho e Artes Plásticas / UFRGS, Pós-Graduada em História do Rio Grande do Sul / FURG. Formação de Escritores pela Metamorfose. Livros publicados: “Janelas da Criatividade”/ 2006; Romance-ficção: “O Mistério da Lança de Sepé Tiaraju” / 2014. Participou de várias coletâneas e “Antologias do Centro de Escritores de São Lourenço do Sul” e “Mulheres e Asas: Borboletas em verso” / 2008. Coletânea de Crônicas “Cidades Indizíveis”/ 2019. Assumiu a Cadeira nº 24 – Da academia Internacional de Artes e Letras Sul-Lourenciana – AIL / 2019. Nas Artes fez diversas exposições individuais e coletivas, vencedoras de dois concursos de esculturas e pinturas em aquarela e acrílico.


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Verena Becker
27/10/2019

 

 

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