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O entregador de flores

Todos os dias, ao sair da aula, Benjamim corria em direção à floricultura de dona Carminha, a bondosa senhora, que lhe dava um prato de comida junto a uma lista de entregas.

Era o prato esvaziar, o que ocorria em instantes, para as flores serem vistas, saindo em disparada pelas ruas. A velocidade somente diminuía ao passar em frente as lojas de brinquedos. Ali o nariz encostava no vidro e a boca seguia o movimento dos olhos. Era o mais próximo que chegava de qualquer brinquedo. Logo a realidade o conduzia até a próxima campainha.

Na ponta dos pés, apertava o botão e aguardava a porta abrir. Era sempre a mesma expectativa: assim que entregava as flores, observava por entre elas o olhar, torcendo para que o brilho fosse grande o suficiente para vir acompanhado de uma gorjeta.

Era dia das crianças, o dia em que as ruas apertavam e as vitrines não tinham lugar para ele.

Estava exausto, já era fim da tarde, e a última entrega tinha as flores mais pesadas que já carregara. Os pés doloridos, machucados pelas pedras soltas das calçadas, faziam o pensamento fugir para a sopa, preparada pela mãe com os trocados que levava.

Antes de tocar a campainha, ouviu um canto vindo por de trás da porta. Possuía uma suavidade misturada com carinho que ele jamais ouvira. Colocou o ouvido na fechadura, fechou os olhos e aguardou as últimas notas.

Ao soar a campainha, um olhar envelhecido apareceu a sua frente. Benjamim esticou os braços com dificuldade, entregando-lhe o buquê.

Não entendendo o que estava acontecendo, ela abraçou as flores, pegando a carta que as acompanhava. As mãos se movimentavam como o vento que soprava, os olhos marejaram quando viu o nome à frente do envelope. Acariciou aquelas letras como se um rosto ali estivesse, abrindo vagarosamente uma história, que seguida por lágrimas distantes retornava. Benjamin já não pensava na costumeira recompensa, não conseguia desgrudar daqueles olhos que modificavam a cada palavra balbuciada.

Ao terminar a carta, a moça respirou as flores e abraçou apertado o menino, que chorava em seu ombro. Virou o pequeno rosto de olhos sem brilho e apontou para a maior loja de brinquedos da cidade.

***

Eduardo Medeiros nasceu em Porto Alegre(RS). Foi músico, membro da Orquestra Profana (grupo pioneiro em executar a música erudita com instrumentos não convencionais, guitarras, baixo e sintetizadores). É funcionário da Prefeitura Municipal de Porto Alegre desde 1994. Com intuito de transformar as histórias contadas aos filhos em uma realidade escrita, está participando do Curso livre de Formação de Escritores da Metamorfose. E-mail: eddumedeiros@globo.com


Eduardo Medeiros
24/09/2019

 

 

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"Fiquei muito satisfeito com o conteúdo da Oficina. Minha experiência com escrita, agora vejo com maior clareza, era inteiramente prática ou intuitiva e, certamente, passível de ser substancialmente melhorada. Gostei muito da orientação obtida através da Oficina e, em particular, da tua avaliação do material dos desafios."

Décio Oliveira Elias,
Rio de Janeiro, RJ

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