Blog da Oficina

Homem de Família

Ao lado do túmulo, eu recebia as condolências sem ter do que lamentar e rememorava o motivo de nenhuma lágrima cair.

Quando Leonel chegava tarde, sabia onde ele estava. Tinha essas reuniões três vezes na semana. Pela meia-noite ouvia estacionar sua Mercedes no pátio, abrir com dificuldade a porta da frente e tropeçar nos degraus da escada. Eu fingia dormir. Ele ia para o banho, ficava uma eternidade embaixo do chuveiro. Deitava na cama e exalava uma mistura do cheiro de uísque com sabonete de lavanda. Nem bem apagava a luz, começava a ressonar.

Cedo eu preparava seu café: um expresso duplo, ovos mexidos com bacon e suco de laranja. Leonel descia bocejando, sem pressa. Meio sem jeito me dava um beijo no rosto,que eu limpava.Trocávamos algumas palavras sobre a contabilidade do escritório, e sossegado, lia o caderno de economia enquanto eu saía para o trabalho.

Com os anos, aprendi a lavar suas roupas sem notar os vestígios que ele sequer disfarçava e a lidar com o fracasso de um casamento de aparências. Mas não foi sempre assim, durante muito tempo, senti os dias sombrios, passava horas na cama sem ter vontade de levantar e noites sem dormir. Fria, indolente, contida.Tive sorte de meus filhos não presenciarem essas cenas. Leonel chamava de síndrome do ninho vazio. Uma boa forma de nomear as suas ausências. Mesmo sem concordar, passei a aceitar os meus cinquenta por cento de culpa.

Momentos antes do sepultamento,em meio às pessoas que se aglomeravam à minha volta, ouvi uma jovem cujo pranto destoava dos demais, não era da família, tampouco de nossas relações de amizade. Caminhei até ela sem causar alvoroço, quando me viu, tentou se esconder.

─Te conheço de algum lugar?─provoquei.

─ Sou a Lívia, só vim me despedir.

Faltava coragem para impedi-la do último adeus.Mal imaginava o serviço que me prestara. Agora, pouco importava, havia um nome, um rosto e um ponto final. Meu filho, com um olhar questionador,quis saber quem era a moça. É a Lívia,respondi displicente.

No meu discurso de despedida, agradeci a Leonel toda dedicação em construir nosso legado. Exaltei suas inúmeras qualidades profissionais, mas nada mencionei sobre confiança e respeito. Ele foi velado como um homem de família.

Lívia ficou com as lembranças, a saudade e o luto, e eu com o resto: a casa, o carro e a caminhonete, a lancha, o chalé de campo,a aposentadoria, o dinheiro do banco, os seguros, nossos quatro filhos e cinco netos, e nenhuma conta a pagar.


Micheline Ceres Tams é jornalista formada pela Unisc. Atua como Gerente Administrativa, desde 2003, da Clinica Imagem, em Estrela/RS. Participou da coletânea de Minicontos de Amor e Morte organizado por Marcelo Spalding, em 2018. É aluna do curso de Formação de Escritores da Metamorfose.

Micheline Ceres Tams
25/09/2019

 

 

Site desenvolvido por metamorfose agência digital

DEPOIMENTOS

"Fiquei muito satisfeito com o conteúdo da Oficina. Minha experiência com escrita, agora vejo com maior clareza, era inteiramente prática ou intuitiva e, certamente, passível de ser substancialmente melhorada. Gostei muito da orientação obtida através da Oficina e, em particular, da tua avaliação do material dos desafios."

Décio Oliveira Elias,
Rio de Janeiro, RJ

mais depoimentos

 

Para Oficina de Criação Literária

 

 

 

curso desenvolvido pela