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A Despedida

A primeira vez que vi a Ceci foi quando ela estava brincando com a Beth, sua boneca nova. Sentei-me ao seu lado e ela rapidamente falou:

– Olá, Alice, essa é minha filha Beth, quer brincar com a gente? Você será a tia dela.

Desse dia em diante, passamos a nos encontrar todas as manhã quando Ceci ficava em casa com a senhora que trabalhava para sua mãe. Aqueles momentos eram muito divertidos e eu me tornei uma companhia importante para a menina, que se sentia sozinha. Juntas criamos muitas histórias e fomos diferentes personagens.

Uma vez, Ceci ficou com muito medo de dormir à noite, depois que sua irmã mais velha lhe contou que havia baratas embaixo da cama. Ceci dormia numa caminha auxiliar ao lado da cama da irmã. Apavorada, ela pediu para eu dormir com ela naquela noite. Depois que ela me contou sobre o menino engraçado da sua escola, conseguiu dormir tranquila até o outro dia. Na manhã seguinte, porém, acordei com os gritos de Ceci na sala. Ela esqueceu de avisar para sua irmã que eu estava dormindo em sua cama:

– Você não viu que a Alice estava dormindo comigo? Como é que você foi capaz de guardar a cama com ela dentro?

A irmã, que adorava assustar a caçula, ficou apavorada achando que Ceci estava vendo fantasmas e tratou de se arrumar logo para ir à escola.

Eu costumava brincar no apartamento de Ceci pela manhã, mas tiveram dias em que fui convidada pra ir na creche ou na casa de algum parente chato com ela. Foi um tempo de muitas aventuras. Foi pra mim que Ceci confidenciou que havia feito xixi nas calças na aula de dança e que tinha medo da música sobre a ponte de Londres que escutávamos num desenho animado. Fui eu a primeira a saber que o dente da Ceci tinha caído e que ela já sabia ler algumas palavras antes de ingressar na escola.

Muitas pessoas tentaram dizer para Ceci que eu não era de verdade, mas sabíamos o quanto a nossa amizade era real. E como toda grande história de amizade que se preze, a nossa também teve seu momento de despedida.

A última vez em que estive com Ceci, foi na velha biblioteca dos Monteiros. Minha amiga não tinha aula naquele dia e se viu obrigada a ir com a irmã na casa do vizinho. A Celine tinha que fazer um trabalho em dupla com o Juninho, que morava na casa de dois andares do fim da rua. Prevendo que teria uma tarde sem grandes emoções, Ceci pegou seu caderno de rascunho com alguns lápis de cor e me arrastou junto para aquele casarão.

Ao chegarmos na casa, Juninho nos levou até o escritório do avô para estudarem. No aposento, que mais parecia uma grande biblioteca, tinha uma escrivaninha com uma máquina de escrever, um telefone com fax, uma mesa, uma poltrona que dava para deitar e uma parede inteira recheada de livros. Ceci ficou encantada com aquele lugar e pediu para Juninho se podia mexer na máquina de escrever. O jovem disse que a máquina era território sagrado de seu avô escritor, mas que a menina, se desejasse, poderia escolher algum livro para ler na grande poltrona enquanto ele e Celine faziam o trabalho de geografia.

Num primeiro momento, Ceci me levou pra brincar na poltrona e começou a desenhar aquela parede de livros. Porém, enquanto observava aquele colorido de capas, minha amiga se deparou com o meu nome num exemplar: “Alice no País das Maravilhas”.

Ela ficou na ponta dos pés e pegou o livro daquela outra Alice. A medida que Ceci percorria aquelas páginas, senti que ela deixava de me ver. “A única forma de chegar ao impossível é acreditar que é possível”, ela lia, e depois copiava a frase em seu pequeno caderno.

A tarde foi passando e senti que a minha missão com Ceci já estava no fim. A menina solitária teria agora outra Alice e outros tantos personagens para lhe fazer companhia. Ela havia se encontrado num mundo novo de possibilidades. Mas não pensem, meus amigos, que fiquei triste com essa despedida tão repentina. A menina que me convidou pra ser sua companheira de aventuras vai se tornar escritora, como o avô do Juninho Monteiro, e ainda vai escrever sobre mim algum dia. E eu? Eu vou continuar vivendo grandes histórias na imaginação de outras crianças.

“ – Chapeleiro, você me acha louca?

– Louca, louquinha! mas vou te contar um segredo: as melhores pessoas são.”

Depois de ler esse diálogo, Ceci começou a rir e me procurou pela última vez pra dizer que éramos uma dupla de louquinhas. Mas eu já não estava mais lá. E foi assim que me despedi de Cecília e encerrei essa história roubando a frase da outra Alice: “quando acordei hoje de manhã, eu sabia quem eu era, mas acho que já mudei muitas vezes desde então.”


* Este conto faz parte do livro Pequenos Grandes Nós

***

Taís Moreira nasceu em Porto Alegre no fim da década de 80. Graduou-se em Pedagogia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e atualmente é professora na Rede Municipal de Ensino. Participou do Curso Livre de Formação de Escritores da Editora Metamorfose.


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Taís Moreira
06/10/2019

 

 

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"Fiquei muito satisfeito com o conteúdo da Oficina. Minha experiência com escrita, agora vejo com maior clareza, era inteiramente prática ou intuitiva e, certamente, passível de ser substancialmente melhorada. Gostei muito da orientação obtida através da Oficina e, em particular, da tua avaliação do material dos desafios."

Décio Oliveira Elias,
Rio de Janeiro, RJ

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