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Um presente especial

Diante do nome que aparecia no minúsculo papel, Mario congelou. Olhando ao redor, tentou ver se podia trocar o papel sem ser visto. Não tinha como, vários colegas estavam próximos e alguns de olho nele.

Era o seu primeiro emprego, em um escritório de advocacia como office boy. Já na primeira semana surgiu o sorteio do amigo secreto de Natal entre todos os colegas. Ele já não gostava muito de Natal e esta situação não ajudava em nada. Teria que comprar um presente para Deus, que era como os estagiários chamavam o advogado chefe do escritório. Os extremos, ironicamente, postos na condição de igualdade.

Mario, vindo de uma família humilde, era bom aluno e tinha ambições. O trabalho no escritório de advocacia, tinha sido uma sorte pois pretendia estudar direito. Estar ali seria um aprendizado. E agora uma dessas! Imaginava a humilhação que passaria. Nunca poderia comprar um presente que estivesse à altura do chefe.

Servia café, distribuía correspondências, fazia cópias. Atividades que se tornaram rotineiras e que depois de uns dias o fazia mecanicamente. Os colegas o tratavam com certa indiferença. Às vezes até com um certo desprezo. Parecia que eles tinham nascidos prontos, e que ser office boy era para seres inferiores.

A cabeça nos últimos dias só tinha uma obsessão: tinha que achar um presente especial. Comprar uma gravata de seda o endividaria até o próximo Natal! O perfume que ele usava, não devia custar menos que um mês do seu salário. Vinho nem pensar! Descobriu que ele gostava de futebol. Uma camisa oficial do time: um mês de salário.

No caminho do escritório à escola, ele passava por um pequeno quiosque. Tinham livros antigos, cartões postais e vários objetos estranhos à venda. Um senhor, com roupas surradas, cabelo ralo e olhos azuis inteligentes, o cumprimentava com a cabeça toda vez que ele passava.

Aproximou-se do velho homem e contou seu drama. Forneceu todos os detalhes que podia a respeito do chefe. Ele escutava com serenidade.

- Meu filho! Um presente não tem a importância pelo valor pago. O que vale é a intenção, a preocupação e carinho com foi escolhido. Vamos achar algo!


Começou a revirar as caixas, tentando se inspirar. Botou os olhos num pacote de fotografias. Caiu-lhe na mão uma fotografia em preto branco, de um campo de futebol do interior, onde apareciam vários jogadores no campo e também a plateia extasiada, pulando e comemorando o provável gol que tinha acontecido. A foto transpirava alegria, celebrando a vitória. Os contrastes de luz e sombra eram perfeitos, fazendo com que parecesse que as figuras saltariam para fora da tela. Decidiu que seria aquele o presente que daria ao chefe. Quem gostava de futebol, gostaria da foto. Custava dois reais. Gastaria um pouco mais para emoldurá-la e estaria resolvido.

Na sexta feira, chegou o dia da revelação. Todos reunidos, alegres, começaram a troca dos presentes. Cada um ia falando alguns detalhes específicos do amigo oculto e o dito cujo se anunciava, em meio a grande gritaria e palmas coletivas.

Mario recebeu o seu presente e era a vez de revelar o seu amigo. Timidamente deu algumas características do chefe e todos se deram conta de quem era. Um certo clima de constrangimento ficou no ar. Alguns certamente suspiravam de alivio por não terem eles tirado aquele papel.

O chefe se aproximou e abriu o pacote. Ao olhar a foto , ele ficou em silencio. Mario achava que iria desmaiar. Por que o silencio? Ele quer me matar de agonia?

- Onde você encontrou isso?

- Comprei num sebo, senhor!

- Veja este senhor, com esta touca esquisita na torcida. Este é meu avô e seu inseparável chapéu da sorte! Foi com ele que aprendi a gostar de futebol. Minha infância foi maravilhosa pois ele estava sempre por perto e me ensinou muitas coisas. Saudades deste tempo. Que belo presente!



***

Angela Elisabeta Kuhn é arquiteta e mora em Gramado, RS. Essa é sua primeira experiência com a literatura. Participa do Curso Livre de Formação de Escritores da Editora Metamorfose.


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Angela Kuhn
20/12/2019

 

 

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Décio Oliveira Elias,
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