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Glicemia

Os segundos batucavam no peito de Sandra. Sentada na varanda do apartamento no terceiro andar, visualizou a silhueta da vizinha, grávida de sete meses, na portaria. Acordou de seu transe e começou a andar pela casa. Circundou a sacada, entrou na sala e sentou no chão por alguns minutos. Levantou-se sem pressa para ir até a cozinha. Tomou um copo de água e foi até a área de serviço, onde as roupas penduradas no varal afagaram seu olfato enquanto deslizava os dedos pelos tecidos. A abertura na janela permitia a entrada de uma brisa leve, e Sandra buscava relembrar como desfrutar desses momentos. Um sopro de vida – principalmente com os gritos de euforia das crianças no pátio e espalhadas pelo condomínio, todas prontas para a caçada de dia das bruxas.

Antes de entrar no escritório, com portas conectadas à lavanderia e à sala, ela pega um pacote de caixas de papelão e, com o auxílio da tesoura, abre a embalagem. Senta-se e desbloqueia o celular. A mensagem do marido, ainda não lida, está entre as notificações, bem como os inúmeros arquivos enviados pela arquiteta a respeito das reformas no apartamento. A mão reticente não busca as últimas atualizações; os dedos circulam a ligação recebida do laboratório na noite anterior.

Quando decide continuar o tour pela casa, a campainha toca. São crianças na empreitada de coletar o maior número possível de doces por andar. Ela os observa pelo olho mágico e gira a maçaneta, forçando um sorriso e um “boa noite, crianças”. Todas estendem os sacos, abóboras e caldeirões plásticos para o depósito da contribuição. Sandra cata algumas balas e bombons perdidos no armário da cozinha e as crianças agradecem em coro, ainda que no olhar a gratidão caia por terra.

Ela fecha a porta e é encorajada pelas lágrimas a ir até o banheiro. Não acende a luz e observa o brilho da lua se misturar aos feixes emitidos pelos postes lá fora, agregando reflexos no banheiro escuro. Sua figura é uma massa corpórea negra mesclada aos elementos. Abre a torneira, lava o rosto com água morna e respira fundo quando seca o rosto. Sai pela suíte, onde a cama está desfeita e o lençol segue jogado no canto direito. Dirige-se até ele e sente a perna tremer quando as mãos o tocam. Abraça-o e faz uma oração qualquer, de improviso, sussurrada. Já não busca controlar o choro.

Levanta-se mais uma vez e leva consigo a roupa de cama. Passa pelo corredor, acende a luz e aproveita a claridade para abrir a porta do quarto secundário. A chave está em seu bolso desde ontem: essa hora ia chegar. Destranca a barreira entre os sonhos pré-fabricados e a dor e entra no dormitório. Olha para o armário vintage, recheado de roupinhas, acessórios, brinquedos e porta-retratos vazios. O móbile pendente roça em sua bochecha enquanto Sandra aperta com firmeza a madeira do berço. Coberto por plástico, o colchão carrega o peso de mantas e cobertores de animais, plantas e personagens de contos de fadas.

Senta-se no meio do recinto. Estranha o silêncio, envolta pelo privilégio acústico proporcionado pela persiana, janela e porta fechadas. Naquele ritual, lembra-se das caixas de papelão, agora esquecidas pelo caminho, já nem sabe onde. Aborta a ideia de permanecer ali, ainda mais sem armas para empacotar aquele mundo recluso. Num rompante, anda cabisbaixa até o closet. Quando termina de abrir a porta, percebe estar revirando as roupas deixadas pelo marido. Sorri com os olhos marejados ante o próprio desatino. No lado certo, pega a fantasia de bruxa no cabideiro, fruto do Halloween do ano anterior, quando se vestiu para a festa temática da escola de inglês onde lecionava.

A bruxa passa pela porta de casa e seu olhar foca na placa-mantra colada em cima da soleira. Lê em voz alta:

- Nos sutras, é dito que quem quer que passe debaixo deste mantra uma única vez, purificará carmas negativos acumulados em milhares de vidas passadas.

Entra no elevador e admira a personagem refletida no espelho. Leva a mão à barriga, ainda guiada pelo instinto do que ficou. Vai até o mercadinho dentro do condomínio, compra doces de todos os tipos, coloca-os numa cesta de vime e sai pelas ruelas a presentear as crianças, finalmente agradecidas pela generosidade da bruxa do 304. Ao cruzar com a vizinha grávida, Sandra apenas se pergunta quantas vezes terá de passar pela porta.



***

Jeferson Haas é jornalista formado pela PUCRS e iniciou este ano o Curso Livre de Formação de Escritores na Metamorfose para resgatar a relação com as palavras. Recebeu o 2º lugar no 31º Concurso Internacional de Composições Epistolares para jovens (RS - 2002), passou por oficinas de Escrita Criativa, fez teatro e hoje atua como frila, com foco em redação e marketing. Participa do Curso Livre de Formação de Escritores da Editora Metamorfose.


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Jeferson Haas
27/10/2019

 

 

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"Fiquei muito satisfeito com o conteúdo da Oficina. Minha experiência com escrita, agora vejo com maior clareza, era inteiramente prática ou intuitiva e, certamente, passível de ser substancialmente melhorada. Gostei muito da orientação obtida através da Oficina e, em particular, da tua avaliação do material dos desafios."

Décio Oliveira Elias,
Rio de Janeiro, RJ

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