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Crianças em Meio ao Nada

Encontrou a foto entre as coisas do pai. A perda ainda pesava em seu peito, mas havia imposto a si mesmo a tarefa de organizar a velha casa. Sem ninguém para ajudá-lo, não tinha a quem perguntar sobre aquelas crianças.

A tristeza nos rostos do menino e da menina, ecoava a pobreza do cenário. Mesmo sem cores, era possível distinguir as marcas do tempo na madeira da casinha. “Não é porque são pretos que são meus parentes”, ouvira o pai dizer inúmeras vezes.

Deu o trabalho por encerrado naquele dia pois precisava dormir. Ao fechar os olhos, viu novamente a imagem das crianças. A escuridão do quarto também se recusava a oferecer algum conforto. Aquele silêncio de cidade pequena sempre o deixava a espera de um invasor. Precisava do barulho vindo da janela de seu apartamento para relaxar.

Após algum tempo rolando na cama, decidiu tomar um chá, mas ao chegar na cozinha, sentiu falta de algo. Demorou alguns instantes para se lembrar da mesa. Tentou puxar pela memória, mas não sabia se o móvel ainda estava lá durante o dia, ou se o pai havia se desfeito dele antes.

Abriu o armário para pegar um saquinho de chá. Nada. Tinha certeza de ter visto alguns. Resolveu voltar para a cama pois aquela incursão à cozinha apenas causara mais perturbação.

Nunca se sentiu confortável ao cruzar a casa no meio da noite. Desde muito pequeno, tinha a sensação de estar sendo observado. Mesmo com o imóvel vazio, sentia alguém à espreita no corredor. A imagem das crianças voltou à mente.

Ao chegar no quarto, precisou acender a luz para ter certeza. A cama sumira. Não havia como alguém ter levado algo tão grande dali naquele meio tempo. Olhou para o corredor escuro atrás de si. Nada. Ao virar-se novamente, o cômodo estava vazio. Sentiu o coração bater muito rápido.

Resolveu enfrentar o corredor, mas queria ver para onde ia. Precisou mergulhar na escuridão pois a lâmpada ignorou o comando do interruptor. Na sala, apenas uma das janelas ainda estava lá. Os móveis também haviam sumido. Um grande espaço vazio.

Na penumbra, conseguiu ver a foto das duas crianças no chão. Não resistiu à tentação de juntá-la. A tristeza no olhar deles o incomodou ainda mais. Ao menos enquanto conseguia ver, pois logo em seguida a última janela desapareceu. Na escuridão total, tinha apenas a foto na mão e o vazio no peito.

Tentou tocar as paredes para se locomover, mas foi inútil. Não estavam mais lá. Caminhou a esmo enquanto havia chão. Gritou ao deixar de sentir as pernas. Em seguida, o tronco também sumiu. Restou apenas a foto em meio ao nada.



***

Carlos Macedo é roteirista de quadrinhos, professor de inglês e tradutor. Formado em Letras, participa do Curso Livre de Formação de Escritores da Editora Metamorfose.


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Carlos Macedo
27/10/2019

 

 

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"Fiquei muito satisfeito com o conteúdo da Oficina. Minha experiência com escrita, agora vejo com maior clareza, era inteiramente prática ou intuitiva e, certamente, passível de ser substancialmente melhorada. Gostei muito da orientação obtida através da Oficina e, em particular, da tua avaliação do material dos desafios."

Décio Oliveira Elias,
Rio de Janeiro, RJ

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