Blog da Oficina

Tudo que você merece

José olhou por cima de seus óculos de mentira para ver a dupla entrando na praça central do shopping que estava toda decorada como uma oficina de brinquedos. A mulher usava um salto agulha extremamente alto, combinando com sua roupa justa e os peitos siliconados. Caminhava decidida, com o nariz empinado e sem sorrir. A filha, que devia ter uns seis anos, usava um vestidinho rosa e os cabelos loiros cacheados caíam por seus ombros.

Ele se esforçou para sorrir para a criança e se ajeitou na gigante poltrona, sentindo o suor escorrendo por suas costas. Não era fácil trabalhar com a roupa completa de Papai Noel no meio do dezembro brasileiro, ainda mais com o sol entrando pelo teto de vidro do shopping e refletindo nos grandes bonecos de neve e iglus brancos diretamente nele.

- Ho ho ho. Olá, minha querida, qual o seu nome?

A menina olhou para ele com um sorriso e chegou perto, dando a entender que queria sentar em seu colo. Ele a puxou e sentou ela em sua perna. Ela o olhou e a expressão que antes era doce mudou para um estranho sorriso. Mais rápido do que qualquer reflexo, ela se agarrou na barba de José e, apoiando os dois pés na beira da poltrona, a puxou com toda a força possível. José sentiu o mundo girar e precisou se segurar para não gritar. A dor aguda o deixou zonzo e com sua visão embaçada. Demoraram vários segundos até a mãe da criança, que estava se olhando num pequeno espelho de bolso, notar a confusão.

- Filhinha amada, solte a barba do Papai Noel – falou sem sair do lugar.

- Eu jurava que não era de verdade – ela disse, risonha – Então você é o Papai Noel de verdade!

José passava a mão na barba tentando recobrar a calma, mas o rosto continuava latejando. Ele olhou para a mãe da criança, que já estava de costas para ele e voltara a se olhar no espelho, como se nada tivesse acontecido, então olhou para a menina e respirou fundo.

- Sim, sou eu.

- Ótimo! – ela enfiou a mão no bolso e tirou uma folha de papel, a desamassou e entregou para ele. – Aqui está a minha lista de presentes desse ano.

José ajeitou os óculos, como se eles fossem de verdade, para tentar voltar ao personagem e olhou para a lista. Era uma folha com, no mínimo, quarenta itens, entre eles um celular novo, uma viagem para a Disney, uma série de brinquedos e um pedido: que uma tal de Amanda quebrasse a perna.

- Você não acha que essa lista está meio grande, minha querida? Assim meu treno não levanta voo.

- Deixa de ser bobo Papai Noel. Tenho certeza que pra uma menina linda e rica que nem eu, vai ter espaço. Qualquer coisa, dá pra deixar os brinquedos das crianças feias e pobres no polo norte para trazer os meus.

José olhou para a menina. Então levantou os olhos para a mãe que estava ali com seus saltos altos sem dar atenção nenhuma, nem para ele e nem para as atrizes vestidas de ajudantes. Era como se eles simplesmente não existissem, ou não merecessem a atenção da realeza. Ele desviou o olhar, viu a atriz se abanando e se deu conta do próprio suor escorrendo por sua testa e do desconforto causado por aquela fantasia ridícula de Papai Noel, criada para fazer sentido em um país em outro hemisfério, mas que ele precisava usar ali para agradar pessoas como essa menina e sua mãe.

As veias do seu pescoço saltavam e a resposta para a menina estava na ponta da língua quando os olhos de José focaram na vitrine bem em frente à oficina e no principal item exposto, o lembrando de sua esposa e do motivo de ter que trabalhar tanto. Ele respirou fundo e forçou um sorriso.

- Você vai ganhar tudo que você merece, minha querida.

- Que ótimo - disse a menina pulando do colo de José. – Vamos, mamãe, quero comer um sorvete.

- Claro, meu amor, você merece tudo - disse a mulher pegando a mão da filha e saindo da oficina. José as acompanhou com o olhar enquanto passavam pela loja de materiais ortopédicos bem em frente a oficina do Papai Noel, desviando da cadeira de rodas elétrica exposta ali, a qual ele trabalhava tão duro para comprar.

- Que menina mal-educada, né? Você está bem, José? – perguntou uma das ajudantes.

- Faz parte do trabalho querida, faz parte do trabalho...



***

Anderson Siqueira Pereira sempre foi um amante de histórias (reais e ficcionais), buscando na literatura e na psicologia formas de entender o mundo e as relações interpessoais. É psicólogo clínico e doutor em psicologia, além de um criador de histórias e um apaixonado pelo DIY. Participa do Curso Livre de Formação de Escritores da Editora Metamorfose.


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Anderson Siqueira Pereira
20/12/2019

 

 

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"Fiquei muito satisfeito com o conteúdo da Oficina. Minha experiência com escrita, agora vejo com maior clareza, era inteiramente prática ou intuitiva e, certamente, passível de ser substancialmente melhorada. Gostei muito da orientação obtida através da Oficina e, em particular, da tua avaliação do material dos desafios."

Décio Oliveira Elias,
Rio de Janeiro, RJ

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