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A voz da Lua

A Lua Nova parecia estar com medo, pois não havia nenhuma réstia de luar quando cheguei ao cemitério. Esbaforido, fui à capela funerária para consolar um amigão de faculdade, o Paulo, pela morte de sua mulher. Assim que recebi a notícia me desabalei para o velório, que não seria longo: a família, decidida a providenciar o enterro o mais rápido possível, conseguiu com que fosse o último sepultamento daquele dia.

Soube no velório que encontraram a Cíntia morta, com o rosto totalmente desfigurado, ao lado de frascos de barbitúricos e garrafas de vinho tinto. Acho que foi melhor o caixão estar fechado: não consegui me despedir dela, mas guardei aquelas boas lembranças que tinha.

*

Numa raríssima ocasião, quando coincidiu de nós três estarmos sem plantões, eles me receberam para jantar em casa. Depois de uma refeição deliciosa, a conversa e o vinho fluíam. Porém, a certa altura da noite Paulo saiu da sala e, quando me dei conta, aquela cabeleira negra com perfume adocicado já estava farfalhando no meu rosto. Não deu para evitar que nossos lábios se encontrassem.

Consegui tirar Cíntia de cima de mim antes que o marido dela percebesse algo diferente. Mas acabei me sentindo mal, fingi que foi pelo excesso de vinho, e fui embora para casa. Quando eu cheguei, contudo, custei a dormir com o gosto daquele Merlot na minha boca.

*

Fui me recompor e peguei um copo d’água na saleta anexa à capela, onde a tevê noticiava que já éramos sete bilhões de seres humanos. Ali no velório, porém, não havia muitos deles: além de mim, só os familiares mais próximos. Pouco tempo depois, a pequena procissão subia as rampas do cemitério pé ante pé, seguindo o caixão; pareciam ter medo de que os moradores daquele mausoléu pudessem acordar.

Na chegada ao jazigo, senti um calafrio como há tempos não sentia. Maldita umidade desses cemitérios. Não demorou muito mais e a Cíntia estava sepultada: abraços, lágrimas, pêsames e condolências. Deixei Paulo com o luto dele e fui lidar com o meu. Quando estava saindo do cemitério, sob o luar acanhado uma voz melíflua sussurrava:

— Agora você é só meu.

*

Ainda estou surpreso por ter recebido do Paulo um convite para o casamento dele. Que bom que se libertou do luto. É fim de outubro, porém a primavera ainda está tímida; está fazendo um friozinho. A Lua Cheia entra pela janela, em faixas através da persiana, junto com a algazarra da meninada do bairro, que está pedindo gostosuras ou travessuras para cima e para baixo.

Havia me barbeado há pouco e tomado um banho; o vapor que vem do banheiro parece uma neblina. Enquanto sorvo taças de vinho sem pressa, preparo a minha melhor roupa. Visto a camisa, abotoo as mangas na penumbra. Calço os sapatos, ponho o cinto, enlaço a gravata com cuidado. Borrifo o perfume que guardo para ocasiões especiais. Pego, de um vaso sobre a cômoda, um cravo branco para pôr na minha lapela.

Da mesa de cabeceira, apanho um frasco de barbitúricos. Abro outra uma garrafa daquele Merlot, cujo gosto nunca mais saiu dos meus lábios; o saca-rolhas permanece de prontidão. Os líquidos passam dos gargalos para a taça, e se misturam na minha garganta com volúpia. Então eu me deito escutando aquela voz melíflua que, em toda Lua, me seduz.

Estou pronto para a noite de núpcias.



***

Daniel Lioti é advogado, apaixonado por RPG e literatura fantástica e um acumulador de informação que passou a dar vazão às suas ideias. Participa do Curso Livre de Formação de Escritores da Editora Metamorfose.


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Daniel Lioti
27/10/2019

 

 

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Décio Oliveira Elias,
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