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Segunda-feira

Era domingo, e aos gritos da criançada, a Vila dos Ipês ganhava vida na praça principal. Às quatro da tarde, como de costume, Helena sentava-se na cadeira de balanço na sacada de seu sobrado para fazer palavras-cruzadas e admirar o movimento de longe, enquanto bebia um gole de café preto.Os jovens desciam rua abaixo com seus carrinhos de rolimã, mães levavam seus filhos para brincar no parquinho e conversar com outras mães sobre qual filho fez primeiro o quê, e como eles eram incríveis por tais habilidades.

Do outro lado da rua vinha um casal nos seus sessenta e tantos anos andando juntos até o banco ao lado da árvore com frutinhas, essas, que até hoje ninguém sabe dizer o que eram. Eles se sentaram, e ali ficaram lendo livros ao som da meninada correndo e do sorveteiro tocando sua buzina freneticamente para manter seu ganha pão.

Helena abaixou suas palavras-cruzadas e trocou olhares com a senhora, que também abaixou seu livro. A velha, sem alarmar o marido, disse que iria colher folhas secas para ornamentar a casa enquanto ele esfregava os bigodes e terminava de ler Tolstói.

A moça da varanda entrou em casa e apressou-se ao irem direção ao portão dos fundos, trancado com cadeado. Ela, com mãos trêmulas, não se sabe se é por conta da idade avançada ou das palpitações que sentia, abriu-o com dificuldade e esperou.

Andando depressa e olhando para trás para ver se não havia sido seguida, a velha encontrou Helena no portão, ainda ofegante. As duas se olharam, trocaram os sorrisos encarcerados durante a semana toda e tocaram os rostos uma da outra com as mãos castigadas pelo tempo.
Com um breve beijo nos lábios, se cumprimentaram e se despediram.

A velha caminhou de volta para o banco onde seu marido a esperava e ele mal havia levantado o rosto das páginas do livro que o encobriam. Helena sentou-se na cadeira e balançou. Aquela cadeira só balançava aos domingos. Com os olhos marejados, a velha abriu-lhe um último sorriso clandestino que perduraria até a outra semana.

O velho pegou a mão de sua esposa e juntos foram embora. Os carrinhos de rolimãs já não desciam mais a rua por conta dos joelhos ralados e lacerações mal cicatrizadas. As habilidades das crianças já haviam deixado de ser novidade para as mães. O sorveteiro havia abandonado
a buzina e sentou-se no banco da praça para contar suas notas de dois reais.

Todos se preparavam para mais uma segunda-feira.


Rafaela Chor é Artista visual, escritora e atriz. Escreve canções desde os sete anos que logo tomaram o formato de poesias. Autora e ilustradora do livro “A Poesia Carnal da Mulher”, foi premiada como Melhor Revelação Literária no ano de 2018 na cidade de Sorocaba. Seja através da pintura, escrita ou música, considera a arte sua maior aliada para abordar temas como feminismo e empoderamento LGBTQ+.
Website- www.rafaelachor.com
instagram- @arte.chor

Rafaela Chor
05/03/2020

 

 

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"Fiquei muito satisfeito com o conteúdo da Oficina. Minha experiência com escrita, agora vejo com maior clareza, era inteiramente prática ou intuitiva e, certamente, passível de ser substancialmente melhorada. Gostei muito da orientação obtida através da Oficina e, em particular, da tua avaliação do material dos desafios."

Décio Oliveira Elias,
Rio de Janeiro, RJ

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