Blog da Oficina

Sogras, Quarteis e Direito de Família

Foi numa sexta-feira chuvosa. A mãe entrou primeiro. O cliente, depois. Um homem pequeno, em cujos olhos se podia ver um pedido mudo de socorro.

A senhora vestia eslaque verde, sem estampas. Tinha na altura da barriga um cinto branco e largo. Outra faixa, idêntica, atravessava-lhe a barriga protuberante para manter uma enorme bolsa, branca, junto ao quadril. O traje lembrava uniforme da polícia do exército, a bolsa imitando coldre a insinuar ordem de obediência. Tinha uma voz grave e monolítica, num sotaque de colônia italiana:

- Bom-dia, Doutor! O senhor nos foi muito bem recomendado. O caso é sério. O Júnior foi enfeitiçado por uma megera, que vai querer bens e pensão.

A mãe falou por mais de trinta minutos, através de frases sem vírgulas e ponto final. Disse que o filho, um virgem tardio, fora seduzido pela nora, a quem a velha atribuiu fama de safada. Contou que Júnior emagreceu muito nos primeiros meses de casamento. Alimentava-se mal, comida ruim da mulher. Desmilinguido, sobrou no alistamento militar e encerrou o destino que lhe havia sido reservado: seguir os passos do pai e se tornar oficial do Exército Brasileiro.

Da janela de casa, a mãe ouviu a nora reclamar do filho. Largou tudo, atravessou o pátio e invadiu a casa dos fundos, em defesa de Júnior. A discussão terminou em bofetadas.

- Está vendo esse arranhão, Doutor? Foi ela, com aquelas unhas de puta. Pois saiba que eu deixei bem mais que isso na cara dela. A panela que eu esqueci no fogão aceso a salvou. Teria apanhado mais.

A boca miúda, coberta de batom vermelho, abriu e fechou sem trégua. Língua batendo no palato, caindo de volta e se levantando numa ladainha que parecia não ter fim. Olhos fixos nos meus, como panóptico a exigir minha atenção absoluta. Raras vezes miraram o teto ou a parede do escritório, dando-me fuga para perscrutar a expressão de Júnior: postura curvada na poltrona e olhar catatônico sobre a planície lisa e vazia da minha mesa.

Júnior tinha os olhos fixos no nada.

Aquela postura me intrigou. O que ele tanto olhava? Mecanismo de defesa contra a mãe opressora? Lembrei das frias psicanalistas e do quanto consertam aquilo que as mães amorosas estragam. Coitado!

A velha continuou:
- Para lá ele não volta. Vai ficar comigo, na casa da frente. Ela que pegue seus trapos e suma! Afinal, a casa dos fundos também é minha, Doutor. Emprestei a eles para ficarem por perto, pois eu tinha certeza que Júnior sofreria nas mãos dela. Deus sabe o que faz. Pior seria se tivessem ido morar longe. Aí sim, ela teria acabado com ele. Megera!

Júnior continuou ali, curvado e mudo. Olhar parado enquanto minha paciência se exauria.

Eu aprendi com as sogras mais do que com o Zaratustra de Nietzsche: ninguém deve suportar o insuportável; a felicidade é o prêmio da vitória do leão sobre a vida infeliz do camelo. A maioria nasce, cresce e morre camelo: carrega nas costas toda a neurose alheia. Para se libertar, é preciso rugir, pondo os invasores a correr. Só depois a gente volta a ser criança, encontrando a felicidade duradoura de que é feito o Reino dos Céus aqui e agora, nesta breve passagem que é a vida.

Pobre casal.

Não sabia a tragédia que é relevar, por tempo indeterminado, as inconveniências das sogras intrometidas. Não lhe disseram que a sogra é a pior vizinha que alguém pode suportar?

De volta a mim, vi que a velha ainda falava. Dei-lhe um basta.

- Minha senhora! Eu entendi a situação. Minha única dúvida é a seguinte... Afinal, com quem o Júnior se aliviava?

- Não entendi, Doutor. Como assim com quem ele se aliviava?

- Refiro-me às melhores músicas de Roberto Carlos... nos lençóis macios/amantes se dão..., travesseiros soltos/roupas pelo chão..., vou cavalgar por toda noite... eu e ela/eu e ela. Refiro-me ao côncavo e convexo que Roberto tanto fala. Em síntese, com quem o Júnior dormia? Com a mulher ou com a senhora?

- Com... com ela, obviamente, Doutor!

- Então me faça um grande favor. Saia e espere seu filho lá fora.

Depois que a velha se retirou, virei para o cliente e lhe perguntei:

- Então, Júnior. Qual é o problema?

- Nenhum, Doutor. Eu só quero voltar para casa e ficar com minha mulher.

Marco José Stefani
16/05/2020

 

 

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"Fiquei muito satisfeito com o conteúdo da Oficina. Minha experiência com escrita, agora vejo com maior clareza, era inteiramente prática ou intuitiva e, certamente, passível de ser substancialmente melhorada. Gostei muito da orientação obtida através da Oficina e, em particular, da tua avaliação do material dos desafios."

Décio Oliveira Elias,
Rio de Janeiro, RJ

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