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Um Péssimo Escritor

Ele encarou seu inimigo. Finalmente. O momento derradeiro chegara e, por um momento, sentiu o ar parar de entrar em seus pulmões. Fechou os olhos procurando sua paz. Então respirou fundo e disse:

‐ Merda, merda, merda! Eu não consigo fazer isso...

‐ Ô, meu jovem, num diga isso. É claro que cê consegue.

‐ Não me ajuda, porra!

‐ Eita. Mas por que não?

‐ Você deveria ser o meu inimigo, é o que está escrito na primeira linha.

‐ Primeira linha? Do que cê tá falando?

‐ Isso aqui é um diálogo. Ou será que você não percebeu ainda?

‐ Uai, claro que isso é um diálogo. Tamo conversando, não?

‐ Não, cacete. Isso é um diálogo fictício. Nós somos personagens visualizados pelo Lucas para a sua aula de escrita criativa.

‐ Peraí, a minha aula?

‐ A aula dele, mula!

‐ Epa! Quem que cê tá chamando de mula??

‐ Estou chamando você de mula.

‐ Mas então cê se prepare pro coice!

‐ Quer saber? Eu não tenho tempo pra isso. Desculpa, tá bom? Eu não quero brigar, só me deixei levar pela parte da inimizade.

‐ Humpf. Tá bom, então. Mas só porque eu num sô de guarda rancor não. Amigos?

‐ Tanto faz, esse diálogo é um desastre mesmo. Ele nunca vai ser um escritor.

‐ Que bonitim, parece que cê se preocupa mesmo do Lucas.

‐ É claro que me preocupo. Afinal de contas, fui criado por ele. Na cabeça do Lucas, todos precisam se preocupar com ele o tempo todo. Isso significa que se você parar pra pensar, vai perceber que também se preocupa.

‐ Eita. EITA. E num é que eu me preocupo mesmo? Que bruxaria é essa?

‐ Não é bruxaria. Ele apenas me escolheu para ser o personagem que explana a situação pois, assim, o leitor não se perde. Percebe que você possui um sotaque e eu não? Ele serve para nos diferenciar, já que não temos uma história ou sequer nomes.

‐ Uai, é verdade. Qué dizê que eu também sô imaginário? Isso é um poquim triste. Me lembra de quando a minha falecida Francine foi...

‐ Triste? Pelo menos você possui uma personalidade bondosa, mas explosiva. O que eu tenho? Sem sotaque. Sem passado. Sem nada. Sou desinteressante. Vazio. Ele nunca mais vai me usar
depois disso.

‐ E eu nunca vô voltá pro meu Oswaldo. Cê sabia que ele e a Francine eram...

‐ Tá bem, chega de bobagens! Mesmo tristes não podemos deixar o Lucas na mão. Precisamos deixar esse diálogo interessante. Vamos, me ajude a pensar em algo.

‐ Tá, deix`eu pensa. Cê sabe quem que é o narrador dessa história?

‐ Acho que sou eu, mas o Lucas ainda não chegou nessa aula.

‐ Ô diacho... Hum, e que tal um conflito?

‐ Um conflito? Claro. Conflitos são interessantes. Ok, não deve ser tão difícil. Podemos criar um
conflito.

‐ Certo.

‐ Certo.

‐ Cê começa.

‐ Mas por que eu?

‐ Foi ideia minha, uai.

‐ E daí? Não é porque você surgiu com a ideia que não consegue pensar em mais nada. Vamos, me ajude!

‐ Tá bom, então. Se acalma, tchê.

‐ Tchê? Achei que você fosse mineiro ou algo do tipo.

‐ Pior que eu também achei. Esse Lucas não é muito bom nisso, né?

‐ Nem um pouco...


Lucas J. Luciano de Luca nasceu e reside em Criciúma/SC. É Pós Graduado em Negociação Internacional e fala Inglês, Espanhol e Francês. Trabalha com importação e como Social Mídia da página Comidas Feia. Sonha em ser escritor.

Lucas J. Luciano de Luca
03/06/2020

 

 

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"Fiquei muito satisfeito com o conteúdo da Oficina. Minha experiência com escrita, agora vejo com maior clareza, era inteiramente prática ou intuitiva e, certamente, passível de ser substancialmente melhorada. Gostei muito da orientação obtida através da Oficina e, em particular, da tua avaliação do material dos desafios."

Décio Oliveira Elias,
Rio de Janeiro, RJ

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