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O azarão

- Pois não, senhor - uma senhora lendo o caderno de TV do jornal o atende.

- Desejo apostar no cavalo oito, duzentos reais.

- Vem cá, eu acho que estou te reconhecendo - falou a senhora.

O homem baixa a vista, tentando sem sucesso se esconder por trás dos clássicos óculos escuros de aviador.

- O senhor não tinha essa cabeleira acaju. Aliás, havia mais cabelos aí.

- Por favor, minha senhora. A corrida já vai começar.

- Eu não apostaria no cavalo oito, o jockey teve graves problemas gastrointestinais ontem à noite. A grande promessa é o cavalo três. Um pai de Santo está empenhado em fazê-lo campeão.

- Não me induza, por favor.

- Só estou falando isso pelos velhos tempos.

- Que velhos tempos?

- Eu mordi sua bunda num filme em 1976.

- Me respeite, sua louca.

- Se calhar ainda tem a marca dos meus dentes cravados nela.

O homem ficou pensativo e investigou o crachá da atendente, pensou alto enquanto lia:

- Valdirene Souza.

Ela arrumou o cabelo, aproximou-se da abertura do vidro da cabine com um biquinho e sussurrou:

- Rosemary Bumbum.

- A ajudante de palco do show de calouros? - questionou, trêmulo, não percebendo o começo da corrida.

- A própria.

- Você não era loira.

- Assim a gente nunca envelhece, bonitão - respondeu balançando os cabelos.

Ele abriu um sorriso com dentes amarelados.

- Precisamos conversar, relembrar os velhos tempos. - Ele mal podia se conter. - Vamos marcar um cinema. Tome meu cartão.

- Estou vendo que você ainda sustenta uma aliança no dedo - provocou.

- Só moramos juntos. Eu e a Euzébia, não sei se lembra dela.

- Claro, a Dolores Azevedo da novela das oito.

Enquanto os dois flertavam, o alto-falante começou a narrar uma disputa acirradíssima pela ponta nos metros finais para a linha de chegada.

- Minha esposa me dá muita dor de cabeça, Rosemary.

O cavalo oito venceu a corrida e os dois paralisam.

- Você apostou em qual cavalo? - perguntou o homem.

- Ih, bonitão, parece que temos um azarão aqui.

- Não acredito, era tudo o que tinha. - Puxou rapidamente o cartão com seu telefone da mão dela. - Você não me dá sorte, Rosemary, você não me dá sorte.



Guilherme David mora em Recife-PE, é formado em Direito e estudante de cinema. Ama narrativas desde a sua mais tenra infância e não consegue viver sem elas.

Guilherme David
14/07/2020

 

 

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"Fiquei muito satisfeito com o conteúdo da Oficina. Minha experiência com escrita, agora vejo com maior clareza, era inteiramente prática ou intuitiva e, certamente, passível de ser substancialmente melhorada. Gostei muito da orientação obtida através da Oficina e, em particular, da tua avaliação do material dos desafios."

Décio Oliveira Elias,
Rio de Janeiro, RJ

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