Blog da Oficina

Loop

— Sai da minha constelação! Não tá vendo? Minha estrela. Minha estrela. Essas são suas estrelas.

— Cara, você fica mais chato a cada ano. Vou te falar que um minuto atrás você não era assim.

— Eu não transpasso suas barreiras, você não transpassa as minhas. Eu no meu espaço e você no seu tempo.

— Tá, tá! Foi mal…

— Que foi agora? Não precisa ficar com essa cara também.

— Não, não, eu só tava pensando. Ei, você tá aqui desde sempre, não é?

— Eu estou aqui desde que eu estou aqui. Se isso é desde sempre não tem como eu saber.

— Tá, tá! Só me diz se você vê o que eu vejo.

— Por acaso nós dividimos os mesmos globos oculares? É claro que eu não vejo o que você vê. Agora, se nós dois vemos simultaneamente algo específico, isso é completamente diferente.

— Pelas crateras da lua! Não tem resposta simples com você, né?

— Só me diz logo o que te aflige, garoto.

— É esse planeta, sabe…

— Não força a barra, ô reloginho, qual deles?

— Esse grande ovo que a gente tem observado há tantos anos-luz, cabeça de trena!

— Não, não! Anos-luz é meu. Não se engane só porque tem anos no meio.

— Foco, por favor. Eu tô falando desse azul e verde. Parece que ele roda, roda e não sai do lugar. Se você me disser que todos fazem isso, eu juro pelo braço da galáxia que eu vou pegar o próximo meteoro para mais longe de você!

— Por um acaso você é régua para saber os meus milímetros? Eu só ia dizer que eu entendo o que você quer dizer. Nervosinho.

— Entende?

— Entendo. E sei até de quem é a culpa.

— De quem?

— Do escritor. Os personagens são diferentes, às vezes muda a fonte do texto e se estiver se sentindo ousado, até a estrutura, mas o enredo é sempre o mesmo.

— E por quê?

— O que corre pela aurora é que ele perdeu uma aposta.

— Uma aposta? Com quem?

— Com o destino. Parece até que ele está ficando louco.

— O destino?

— O escritor, cabeça de areia. Imagina: ter que repetir os mesmos erros sem a chance de mudá-los. Eu ficaria louco.

— E quanto tempo acha que essa aposta vai durar?

— Como eu vou saber? Esse é o seu domínio.

— Pelo menos sabe quando começou?

— Hmm, deixe-me ver… Quando foi que essa tal de humanidade entrou na cena?

— Há pelos menos 350 milênios.

— Tá aí sua resposta. Eu gostava da era dos dinossauros, foi o apogeu criativo do escritor.

— Nem vem! Era é minha. Se eu não posso ter anos-luz você não pode ter era.

— Pelas quinas do metro quadrado, quando foi que ficou tão possessivo?

— Mas foi você que… Você que disse… Ah! Esquece. Nós vamos ter que ver essas pobres criaturas correr em círculos?

— Tô te segurando? Você pode olhar para o outro lado se quiser.

— Nada de interessante acontecendo por lá também. Mas me diz, como nesse vasto universo, alguém é burro o suficiente para fazer uma aposta com o destino?

— Nem me fale. Aquele trapaceiro galáctico parece sempre saber o resultado.


***

Juliana Morandi Cardoso nasceu em 2001 na cidade do Rio de Janeiro e mora em Pedra Dourada-MG. Embora seja técnica em administração pelo Instituto Federal Fluminense, a arte, em suas variadas formas, sempre esteve presente em sua vida. A literatura é sua paixão mais antiga e aquela a que mais se dedica.

Juliana Cardoso
09/09/2020

 

 

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DEPOIMENTOS

"Fiquei muito satisfeito com o conteúdo da Oficina. Minha experiência com escrita, agora vejo com maior clareza, era inteiramente prática ou intuitiva e, certamente, passível de ser substancialmente melhorada. Gostei muito da orientação obtida através da Oficina e, em particular, da tua avaliação do material dos desafios."

Décio Oliveira Elias,
Rio de Janeiro, RJ

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