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A troca

Lacerda caminhava sobre o piso de lajotas sem graça e observava as cores esmaecidas, já sem vida. Sempre achara que os pisos tinham a ver com o ambiente não somente por uma composição estética, mas para refletirem a que se propunham. Eram frios e sem compaixão nos bancos, amadeirados nos ambientes calorosos e assépticos e impessoais nos hospitais. Minutos antes, estava a percorrer com os olhos os nomes no quadro de avisos. Não teve alternativa, teria que esperar meia-hora.

Dirigiu-se a parte antiga do cemitério onde os túmulos mais pareciam pequenas casas numa cidade abandonada e de ruas planejadas pelo destino, com anjos cabisbaixos de guardas. Neste lado, a vegetação crescia desordenada entre as rachaduras das calçadas, como dedos que quisessem romper a terra e emergir para o mundo dos vivos. Lacerda ouviu o som inconfundível de passadas de solado novo na lajota, emparelhando com as suas. O homem perguntou:

— Vais ao enterro de Fausto?

— Sim — Lacerda observou o homem alto ao seu lado.

— Vamos ter que fazer hora — disse Lacerda.

— Cheguei muito cedo. Não me conformo. Já faz um tempo que aqui estou a caminhar de um lado para outro — falou o estranho.

— Eras parente do morto? — perguntou Lacerda, atribuindo ser sofrimento a palidez no rosto do outro.

— Não.

— Amigo? — insistiu Lacerda.

— Não posso dizer que fosse um amigo — ficando pensativo.

— Colega, conhecido? — continuou Lacerda.

— Posso lhe assegurar que o conhecia muito bem. Um sujeito jovem para morrer e que levava uma vida prazerosa. E você estás aqui por quê?

— Já que não és parente e nem amigo do falecido, vou te confessar que nem o conhecia. Costumo vir a enterros de desconhecidos.

O outro o olhou com espanto — Vens a enterros de pessoas que não conheces! Mas por que cargas d’água Meu Deus?

— Nem sei o porquê de fazer isto. Não consigo evitar — respondeu Lacerda, num sorrisinho torcido. O perfume adocicado do outro já estava lhe enjoando.

— Não achas muito fúnebre a cerimônia toda, o choro, a dor, a hipocrisia? Eu não gosto nada disso, aprecio demais a vida!

— A vida em si me tem sido enfadonha — respondeu Lacerda. — Não sei o que daria para ser tomado por uma forte emoção, uma vez que fosse, como uma paixão avassaladora, um vício alucinante, um coração em disparada, algo que me arrebatasse e terminasse com este marasmo que me persegue desde jovem.

O outro o olhou demoradamente e perguntou: — Não tens família?

— Praticamente não. Divorciado e meus filhos é como se não os tivesse.

— Então serias capaz de fazer qualquer coisa para sentir uma emoção intensa?

— Sim! — sorriram os dois, cada um por suas razões. O sino da capela tocou.

Ao mesmo tempo, olharam seus relógios e dirigiram-se ao cortejo que acompanhava o corpo de Fausto. Lacerda foi abrindo caminho entre as pessoas, em direção ao caixão que era colocado no chão para a última olhada. O sujeito deve ter sido muito querido, pensou ele, com uma certa inveja. Foi o último a se aproximar. Ao olhar para dentro reconheceu o perfume nauseante que vinha dos gerânios e prímulas que circundavam o corpo. Primeiro um rubor subiu-lhe a face, seguido de uma palidez. O coração acelerou e foi tomado de grande emoção. Só ouviu as passadas de um sapato de sola se afastando e seus dedos tocaram o cetim que envolvia a tampa por dentro.


Rosane de Fatima Cardoso nasceu em Canguçu e trabalhou como dentista, psicóloga e funcionária pública federal, hoje aposentada. A infância foi povoada de histórias reais e fictícias e a literatura sempre esteve presente em sua vida, mas foi na psicologia que despertou para a escrita, gostando de escrever contos, crônicas e poesias. Atualmente é aluna do Curso de Formação de Escritores da Metamorfose Cursos. Participa do Curso Livre de Formação de Escritores.

Rosane de Fatima Cardoso
14/01/2021

 

 

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DEPOIMENTOS

"Fiquei muito satisfeito com o conteúdo da Oficina. Minha experiência com escrita, agora vejo com maior clareza, era inteiramente prática ou intuitiva e, certamente, passível de ser substancialmente melhorada. Gostei muito da orientação obtida através da Oficina e, em particular, da tua avaliação do material dos desafios."

Décio Oliveira Elias,
Rio de Janeiro, RJ

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