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As palavras e eu

Às vezes penso que somos consumidores de palavras. Apenas isto: sorvedouros de vocábulos. Em conjunto, isolados, soltos. Combinados. Aprisionados. Livres. Misturados. Comensais de iguarias linguísticas. Algumas, apimentadas. Outras, salgadas. Mas também há comidas insossas, com algum azedume ou demasiadas no amargor. O amaro, por vezes, perdura na boca. Nem sempre a desejada sobremesa fecha a refeição.

Em verdade, são poucos os que têm vocação para Graciliano Ramos, que escrevia “com as mesmas vinte palavras girando ao redor do sol”, conforme o definiu, em versos, João Cabral de Melo Neto. O autor de “Vidas Secas”, como sabemos, possuía sutileza para o uso da palavra, sempre com elegância, sem desperdícios. Escrevia como quem devolve águas cristalinas ao leito de rio seco.

Eu, por exemplo, gosto da palavra-síntese. O minimalismo me encanta, me atrai, me alicia. Os poemas curtos, com sua missão de inundar o mundo de significados, sem verbosidade. As micronarrativas, avessas às facúndias estéreis, com sua eloquência elegante, mínima. Pérolas, não parolas. Mas quando necessito de termos precisos para descrever, relatar, contar, narrar, sinto que as margens saltam para fora, sem resistências. A enxurrada verbal transborda, soterrando os sentidos, emudecendo os enunciados, ensurdecendo os silêncios. O texto fica sem intensão. E tensionado.

Um bom texto, creio, deve conter o equilíbrio das palavras. E um bom autor deve buscá-lo, para dar harmoniosa estabilidade ao seu mundo. Quem sabe, assim também o mundo ao redor se equilibre e deixe de ser apenas o chafariz apontado por Saramago, de onde as palavras escorrem fluidas como água, que “alagam o chão, sobem aos joelhos, chegam à cintura, aos ombros, ao pescoço”, como um “coro desafinado que jorra de milhões de bocas”.

As palavras, segundo o escritor português, são tão boas quanto más, tão ofensivas quanto gentis. O que o autor da crônica “As Palavras” não disse, por obviedade, é que são necessárias. Sim, pois ao tempo que são produtos do pensamento, produzem novos pensares, não disponíveis em gôndolas. Por isso, é preciso pô-las na escrita, único caminho para visitarmos os mangarás do pensamento.

E escrever é firmar-se nas bordas das palavras, com asas abertas, em posição de prontidão para o voo. Ou para o desiquilíbrio.


Giuseppe Caonetto, nome literário de José A Cauneto (1962), é natural de Paranavaí (PR). Licenciado em Letras (Unespar, 1989), Especialista em Língua Portuguesa (Unespar, 1992) e Bacharel em Direito (UENP, 1997). Membro fundador da Academia de Letras e Artes de Paranavaí. Publicou Santo Rosário: um tesouro mariano (Vozes, 2010), Para que os olhos falem: poemas ternos (poesia, edição do autor, 2012), Doarte (poesia, EGP, 2016) e Trilhas Sazonais: versos liturgos (em coautoria com Lilia Souza, Sarau das Letras, 2020). Coautor e coordenador do livro comemorativo Vara do Trabalho de Paranavaí: 18 anos de história (TRT PR, 2004). Participou das antologias Poetrix 2 (MIP, 2007), Poetrix 5 (Scortecci, 2017), Poetrix 6 (Rumo Editorial, 2019) e Prêmio CNNP (Vivara, 2015). Premiado no 54º FEMUP - Festival de Música e Poesia de Paranavaí (2019).

Giuseppe Caonetto
10/08/2021

 

 

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Décio Oliveira Elias,
Rio de Janeiro, RJ

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