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Papo de avião

– O senhor poderia me dar licença? Minha poltrona é a da janela.

– Ah sim, pois não, senhorita. – Levantou-se para que a moça pudesse passar.

Ela se acomodou, afivelou o cinto de segurança e conectou os fones de ouvido. “Em uma hora e meia de viagem dará tempo de adiantar minha leitura”, pensou ela ao retirar um livro da bolsa.

Os dois permaneceram alheios um ao outro até que o serviço de bordo foi anunciado.

– Suco, refrigerante ou água? – perguntou a comissária ao se aproximar, dirigindo um olhar e um sorriso automático aos dois passageiros.

– Água – disse ela.

– Suco, por favor – pediu ele quase ao mesmo tempo.

Com movimentos ensaiados, a comissária entregou as bebidas e mais um pacotinho de biscoitos. Envolvido em guardanapo cuidadosamente dobrado a embalagem parecia um volume precioso; o conteúdo, porém, era diminuto.

Ao terminar o lanche, ela recolheu a mesinha e ele observou o título do livro sobre o colo da sua companheira de viagem. Ainda faltava quase uma hora de voo e uma conversa poderia ajudar o tempo passar.

– A senhorita está gostando do livro?

– Ah, não muito. O autor escreve bem, mas estou achando muito monótono, sem emoção.

– Eu já li esse livro.

– É mesmo, e o que achou?

– Também achei monótono, mas consegui perceber emoção no final.

– Estou lendo apenas porque foi recomendado. Estou fazendo um curso de escrita literária e o professor sugeriu a leitura.

– Olha que interessante! Então você pretende ser ou já é uma escritora?

– Por enquanto são apenas planos. – Ela fez uma pausa depois continuou esboçando um sorriso. – É o primeiro livro que leio depois que comecei o curso e estou observando uma série de aspectos que eu não costumava prestar atenção. Acho que este livro está sendo ótimo para eu perceber o que não devo fazer se quiser escrever livros surpreendentes.

– Então, de alguma forma, ele está sendo útil.

– Sem dúvida. Eu tenho uma opinião sobre obras de artistas famosos. Depois que eles alcançam o sucesso, qualquer coisa que fazem é aplaudida pela crítica. Se fosse uma pessoa desconhecida que fizesse aquilo, todos colocariam mil defeitos. Pensei isto quando vi uns desenhos de Picasso, e com este autor é a mesma coisa. Desde que Quirino Barros ficou famoso não escreveu mais nada interessante, este livro é um exemplo. – Riu novamente dando a conversa por encerrada.

– Concordo com a senhorita.

Ela recolocou os fones de ouvido, retomou o livro e o resto da viagem transcorreu em silêncio. Saíram do avião após uma rápida despedida e tornaram a se encontrar, acidentalmente, ao lado da esteira de bagagem. Ele a olhou e disse:

– Posso perguntar o seu nome para me lembrar quando vir um livro seu publicado? – indagou de maneira tão simpática que ela não teve como recusar.

– É Maria Amélia Gonzaga. E o seu?

– Antônio Quirino Barros. Foi um prazer, senhorita – finalizou a frase já a correr atrás da mala que acabava de passar.


Janeth de Oliveira Silva Naves vive em Brasília e é mãe de três filhos. Formada em Farmácia, é mestre e doutora em Ciências da Saúde e professora aposentada da UnB. Adora ouvir e contar histórias, ver filmes, ouvir música e cuidar de plantas.

Janeth de Oliveira Silva Naves
09/11/2021

 

 

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DEPOIMENTOS

"Fiquei muito satisfeito com o conteúdo da Oficina. Minha experiência com escrita, agora vejo com maior clareza, era inteiramente prática ou intuitiva e, certamente, passível de ser substancialmente melhorada. Gostei muito da orientação obtida através da Oficina e, em particular, da tua avaliação do material dos desafios."

Décio Oliveira Elias,
Rio de Janeiro, RJ

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