Do que a literatura me fez lembrar nesta virada de ano

Letícia Möller

Para a última semana do ano, passada na quietude das montanhas, peguei três livros meio que ao acaso e os pus na mala sem pensar muito. Um porque comprado há meses na promessa de ser prioridade, outro pela curiosidade de descobrir a voz do autor, mais o outro porque deparei com ele na estante atrevido, se convidando. Não nessa ordem, foram assim eleitos O filho de mil homens, de Valter Hugo Mãe, os ensaios de Autoimperialismo, de Benjamin Moser, e Um pequeno herói, novela de Dostoiévski.

Li no ritmo de antigamente, entenda-se, no meu ritmo de antigamente ter 15, 23 anos. Li que devorava páginas e mergulhava entre frases e quase perdia noção de quando e onde. Um ler veloz e profundo ao mesmo tempo, daqueles que há muito eram ausência.
 
Para mim que sou mais feliz no mergulho solitário que nas formas convencionais de passar férias, foi um belo modo de ver o ano se esvair nas promessas do novo ano (mais nos desejos que nas promessas, na verdade). Que não foi só de leitura o fim do ano, tenho que acrescentar. Imersões nos livros foram até que bem intercaladas com momentos de convívio muito amigo e prazeroso. Respiros bem-vindos para novo submergir em águas fundas.
 
Foram águas cristalinas, não turvas, de bom augúrio para o ano que inicia. A literatura desenhando imagens do que pode vir a ser se razão e emoção cultivarem bondade, coragem, esperança e amor à beleza.
 
Nesta virada de ano, a literatura me lembrou que a bondade pode sobreviver ou florescer até mesmo nos ambientes mais hostis. Que é preciso coragem para vencer em meio ao preconceito arraigado em mentes toscas, mas que se pode vencer. Que o amor suaviza arestas e diferenças. Como aconteceu com Crisóstomo e Isaura, com Antonino e Matilde, no romance de Hugo Mãe. Que a dignidade e a pureza de sentimentos são valores a defender com unhas e dentes contra a vilania, a hipocrisia, a inveja e a mediocridade, como fez o pequeno herói de Dostoiévski.
 
Com Moser, que é preciso lutar pela beleza, que não é capricho, mas necessidade humana. Que a feiúra das cidades abriga uma feiúra moral, e que esta sim é mais difícil de a gente se livrar (mas não podemos perder a esperança). Que importam as pessoas, mais que prédios, shopping centers, monumentos grandiosos, projetos ambiciosos ou conceitos tão geniais quanto vazios de sentido.
 
A literatura é fantástica por muitas razões, e dentre elas podemos dizer que é fantástica pelo poder de nos despertar do torpor, por dar alento à tristeza e à desesperança, por ajudar a corrigir rumos, lembrar do que importa, inflar nosso peito de valentia. 
 

 

Que em 2017 as histórias e as ideias, as narrativas e os ensaios, renovem nosso espírito adoecido nos acontecimentos deste ano sombrio que enfim nos deixa. Que nos tornem plenos de amor, coragem e esperança. Que possamos seguir na construção de nossa própria história, nos deixando conduzir por honestidade de intenções e sentimentos, pela empatia pelo outro, pela beleza de nossos atos e pela confiança em nossa capacidade de sermos melhores do que somos.

 

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