Obstinatum Rigore

Paulo Tedesco

O termo latim “Obstinatum Rigore” ou “rigor obstinado” é cláusula irrevogável de um bom trabalho. A ausência de rigor num texto de qualquer área pode condenar de imediato o que poderia vir a ser uma boa obra, e nesses tempos de avalanchas de conteúdo, perder um leitor, ainda que alguém mais tolerante, não é um tipo de luxo dos mais recomendados.

E o que no texto escrito seria esse “rigor obstinado”? E para a ficção? Haveria manual para isso? Haveria profissionais a resolver? Sem querer bancar o oráculo, é bom trilhar o usual: depende muito dos objetivos do autor, e que pode ser também um editor, afinal a variedade de gêneros não é nada pequena, com não é pequeno o universo de leitores a que dirigimos um livro.

Muitos gostam de comparar, não sem razão, um bom livro a um bom vinho envelhecido e de vinhas bem cuidadas, ou não necessariamente velho, mas de uvas cuidadas e tratadas com gentileza extrema. Pois estudar como outros autores consagrados e até editores se comportavam diante dos seus originais, do tempo de produção e de suas técnicas, como Phillip Roth*, que afirmava escrever cem ou mais páginas e delas retirar excertos que considerasse fundamentais para depois queimar as sobras de mais de cem páginas escritas, pode ser um primeiro caminho na busca do nosso Obstinatum Rigore.

Acredite, um bom editor como um bom crítico sabe já nas primeiras frases de um livro se ali houve a obstinação pelo rigor. E, por conta disso, talvez principalmente por isso, é que um grande número de originais é recusado diariamente pelas editoras mais sérias e por críticos, e inclusive desmerecendo autopublicações que poderiam até se tornar boas obras.

Nesse contexto, lembro que se há algo para além do exercício da reescrita, esse algo é a pesquisa exaustiva sobre o tema abordado. O que serve igualmente para a ficção na busca de sua verossimilhança externa. Uma boa pesquisa, e bem embasada, faz a diferença.

Uma vez que cada área do conhecimento tem seu rigor, como cada pessoa tem sua maneira particular de conduzir suas coisas, quando se trata de texto, de tinta ou pixel preto ou sobre fundo branco, tudo fica um pouco diferente e as exigências devem se tornar ainda maiores. Não por coincidência o diálogo entre tradutores e leitores sobre a produção de um livro é curiosamente intenso nas redes sociais; eles, os bons tradutores, sabem dos limites para ter um trabalho razoavelmente bom.

E falando em tradução, o rigor nessa área é famoso, pois a traição de um clássico pode significar a traição de uma escola literária e de uma legião de leitores. E talvez a melhor pessoa para se falar do rigor possa ser mesmo um bom tradutor, pois o trabalho intenso em diferentes línguas bem como bibliografias exaustivas e o compromisso com o resultado, geralmente de forma anônima, são os divisores de águas na cultura de um país.

Por fim, se o autor ou a editora não aprenderem a separar o que é realmente bom do que não é tão bom, o esforço por uma obra ou de uma empresa editorial pode nascer condenada. E o que poderia vir a ser um dia recuperado, poderá ser tarde demais para muitos e inadiáveis sonhos.

*Philip Roth é autor de Complexo de Portnoy entre outros e a história de sua técnica de produção foi retirada do livro Os Escritores 2 – As Históricas Entrevistas da Paris Review, Companhia das Letras, 1989.

 

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