Confesso que não li todos os clássicos

Jacira Fagundes

Venho de uma época em que eram raras as famílias que investiam em livros e leituras. Tampouco eram escassas  as obras relevantes que chegavam às mãos dos pequenos ou jovens, via professor. Aprendi bem cedo a gostar de ler com um irmão mais velho que cursava o antigo Clássico  no Colégio Nossa Senhora das Dores e que me alcançava livros retirados  da biblioteca. Era literatura nem  tão direcionada a uma adolescente nos seus 12, 13 anos, mas eu me encantei com autores como Érico Veríssimo, e um pouco mais pra frente, com Jorge Amado e Oscar Wilde e ainda Agatha Christie. Os clássicos não chegaram até mim. Talvez não se enquadrassem nas preferências de meu irmão.

Foi bem mais tarde que eles me foram apresentados. Alguns, como por exemplo: Balzac, Flaubert, Hemingway, Henry  James e mais tarde, Borges. De outros, ainda tomei conhecimento através do cinema, mas não através da literatura.

Nestas férias me dispus a ler duas obras de Italo Calvino  e é sobre estas duas obras que trazem respostas e propostas enriquecedoras para o leitor e para os escritores  que quero falar: “Por que ler os clássicos”  e “Seis propostas para o próximo milênio”.

No artigo de  abertura da obra  “Por que ler os clássicos” , Calvino já me  põe à vontade e me redime de culpa.

São palavras do autor:

Os clássicos são aqueles livros dos quais, em geral, se ouve dizer: Estou relendo... e nunca Estou lendo... Isso acontece pelo menos com aquelas pessoas que se consideram grandes leitores.”

“O prefixo antes do verbo ler pode ser uma pequena hipocrisia  por parte dos que se envergonham de admitir não ter lido um livro famoso.”

E assim segue Calvino me  tranquilizando:

“Por maiores que possam ser as leituras de formação de um indivíduo, resta sempre um número enorme que ele não leu.”

Eu, particularmente, fico devendo a uns tantos autores e obras que Calvino apresenta com detalhes no decorrer de “Por que ler os clássicos”. Mas estou certa, como ele mesmo afirma, de que irei ler (e não reler), pela primeira vez, agora na idade madura,  algumas das obras descritas com um entendimento  bem maior e melhor do que teria lido na juventude, tempos atrás.

Embora não conste da relação de autores citados na obra de Calvino, considero “Cem anos de solidão” de Gabriel García Marquez, um clássico de nosso tempo. Este esteve também entre minhas leituras de férias, ou melhor dito, entre minhas releituras. E confesso ter apreciado muitos detalhes e adquirido  significados que passaram despercebidos na minha primeira leitura na juventude.

Já “Seis propostas para o próximo milênio”, embora não de todo desconhecida, é uma obra atualíssima, citada  pela  imprensa  sobre as conferências que Calvino preparou para apresentação na Universidade de Harvard e que, devido à sua morte repentina, não foram proferidas.  Leveza, Rapidez, Exatidão, Visibilidade e Multiplicidade, (a sexta proposta, Consistência, não chegou a ser escrita), seriam as qualidades primordiais  da literatura no rigor de  percepção do autor. Teria  sido  seu grande desejo: o de transmitir à humanidade  o conjunto de virtudes não só essenciais à atividade da escrita e dos escritores, mas principalmente, essenciais ao compasso tumultuado que vem direcionando a humanidade neste nosso  milênio.

Deter-se em cada uma destas qualidades, lendo ou relendo, é adquirir o discernimento de que, como cita o autor, “ há coisas que só a literatura, com seus meios específicos, nos pode dar”.

Aos escritores, aos leitores e à humanidade como tal.

 

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