Brevíssimo ensaio sobre linguagem e inclusão social

Cássio Pantaleoni

Eu penso sobre as preocupações sociais que, vez ou outra, aparecem nas conversas dos partícipes desse círculo restrito (?) denominado escritores. Penso o quão urgente e necessário é o tema, o quão legítimo é, na medida em que convém àquela harmonia tão desejada à sociedade.
 
Há, no centro das elaborações intelectuais, todo um caráter de inclusão, um caráter de resgate daqueles que vivem às margens da sociedade. É sobretudo a recorrente afirmação de que não se pode viver de consciência tranquila enquanto não oferecermos alguma chance aos menos privilegiados. Essa missão é nobre, necessária e acima de tudo humana. 
Contudo, do mesmo modo que colocamos uma criança em pé pela primeira vez, crendo que depois de alguns tropeços ela será capaz de caminhar por si só, a inclusão social não pode abrir mão do amparo inicial que “educa” o caminhar. Numa sociedade que se constitui, que se regula, que se afirma e que rejeita pela palavra, a inclusão social pressupõe também o amparo com a linguagem.
 
Não creio, entretanto, que “educar” para o caminhar na linguagem esgota-se na compreensão da fala comum, do dizer corriqueiro e familiar. A verdadeira inclusão social só se dá libertando o indivíduo no campo da linguagem, tornando-o capaz de ultrapassar o corriqueiro e o familiar, de ultrapassar o comum. Tal “educação”  para o caminhar na linguagem acontece essencialmente, no seu modo mais profundo e marcante, na leitura. 
 
Há que se pensar se toda e qualquer leitura oferece a educação para o caminhar na linguagem. Em grande medida, toda a linguagem é alguma linguagem útil e necessária, porém nem toda a linguagem aparentemente inútil deveria ser deixada de lado. O dizer poético – que na atualidade aparece-nos como uma demasia, como inútil – retoma no caminho o próprio caminhante, recolocando-o na condição de aprendiz. Essa devolução à condição prévia (do indivíduo que se ampara na inclusão social), que a poesia proporciona, é definitivamente uma devolução para outras possibilidades da caminhada. De certo modo, é um alargamento do caminho.
 
Retomo, assim, dentro do círculo dos escritores, uma questão que me parece crucial: em que medida a nossa escrita revigora a educação para o caminhar na linguagem? Em que medida estamos comprometidos em assegurar o alargamento do caminho, ofertando ao caminhante melhores possibilidades de constituir-se, regular-se, afirmar-se e rejeitar o que pela palavra aparece assim e pela palavra se transforma em qualquer outra coisa que não o que não se quer dizer?
 
Para mim, o escritor somente está comprometido com a inclusão social enquanto for capaz de trazer o que vive na periferia da palavra para dentro da palavra, conciliando o incomum com o comum, concedendo a esta conciliação um caráter familiar, o inclusive familiar, mesmo que não de todo inteligível, mas sobretudo capaz de ser sentido como possível na linguagem. Não se trata apenas de resgatar aqueles que vivem à margem, mas de resgatar com eles a própria palavra que lhes é corriqueira e suficiente, e ampará-la na mesma medida em que amparamos aquele que é resgatado, para que a palavra em si mesma, além de suficiente, seja espanto com o possível da linguagem.
 
 Creio que aqueles que viverem tal experiência compreenderão a necessidade de continuar os resgates dos que vivem à margem da sociedade. E esse é o círculo virtuoso de que tanto necessitamos.

 

Comentários:

Cassio, concordo com teu argumento, que expões muito bem. Foi um feliz acaso a publicação quase simultânea dos nossos textos aqui no AG, pois me parece que eles dialogam bem.
Letícia Möller, Porto Alegre/RS 04/05/2017 - 20:21

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