As universidades, a escrita criativa e a formação de escritores

Peter Larrubia

Tenho feito três perguntas para professores universitários, entre eles mestres e doutores, de diversas instituições publicas e privadas da área de Letras:

1) Por que a disciplina Escrita Criativa é praticamente ausente da grade de Letras?

2) Por que, a exemplo do curso de música que forma músicos, de Artes plásticas que forma artistas plásticos, e assim por diante, o curso de letras não forma escritores?

3) É possível ensinar a escrever?

Para a terceira pergunta a reposta foi praticamente unânime: sim. A exemplo do curso de jornalismo, a escrita fluida e atraente pode ser aprendida como um pintor aprende a combinar cores. As divergências começam a surgir quando essa escrita é a de ficção. Voltarei a esse ponto nevrálgico ao final do texto. Por hora, vamos nos deter aos argumentos para as duas primeira perguntas. Elas podem ser encaradas sob três perspectivas: a cultural, a institucional e a pessoal.

A cultural diz respeito aos costumes petrificados no Brasil que nos remetem ao imaginário popular do artista como possuidor de um dom inato. Onde, não só esse dom não pode ser ensinado, mas quem o possui não precisa estudar para aprimora-lo. Vem-me à mente a famigerada frase do jogador de futebol, Romário, “Treinar pra quê, se eu já sei o que fazer?”. E esse jogador é hoje senador da nossa republica. O que diz muito sobre nosso país. No momento, não vou me deter nos porquês, mas tenho convicção de que essa cultura não só é errônea, mas, prejudicial.

A perspectiva institucional diz respeito à história do nascimento das universidades e dos cursos de Letras. Seus fundadores eram críticos, e não escritores. Portanto, carregamos esse legado que foca os estudos universitários em linguística e teoria literária até hoje.

Sobre o ensino e prática da escrita criativa na faculdade sob as perspectivas pessoais, as principais dúvidas que surgiram foram:

- Como julgar a produção do aluno? A resposta vem com outra pergunta: como fazem nos cursos de música e artes plásticas? Bem, vamos ate lá para ver de perto.

- Como chancelar que um aluno tornou-se escritor? Repito a resposta anterior e complemento informando que a PUC do rio de janeiro já oferece o curso​ de formação em escritor. como eles procedem? Lembro também que os EUA já fazem isso há décadas. Pesquisemos.

- O contato com grandes escritores e com teoria de nível muito complexo funcionariam como inibidores do aluno que pretende escrever? Claro que não! Estatisticamente pode até existir uma minoria que se sinta intimidada, mas esses já iriam desistir diante de quaisquer outros percalços. A leitura de grandes escritores só vai servir como fonte de pesquisa e inspiração. E o contato com grandes críticos só vai gerar o conhecimento e o rigor necessário para a formação de futuros bons profissionais da escrita de ficção.

Sócrates disse: quem conta histórias rege a sociedade. Hollywood e a indústria da TV perceberam isso há muito tempo. Hoje a China investe massivamente em cinema. A Argentina começou a colocar o cinema como matéria no ensino fundamental. As bienais do livro são testemunhas de verdadeira histeria coletiva por livros: crianças, jovens e adultos devorando histórias e adorando autores. A demanda por cursos e manuais de EC é enorme. Por que a academia de Letras deveria ficar de fora dessa história? (Perdoem o trocadilho). Não é só uma questão de oportunidade, mas de um dever institucional e intelectual. As universidades devem, diante dessa enxurrada de cursos e manuais de escrita, participar ativamente da formação de escritores e contadores de histórias, garantindo e fomentando uma formação adequada e uma produção de qualidade.

Peter Larrubia é bacharel em psicologia pela UFRJ e graduando em Letras pela Fundação Educacional Unificada Campo-grandense. Atua como funcionário público na CEF e, escritor nas horas vagas.

 

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Décio Oliveira Elias,
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