O professor frente à leitura

Jacira Fagundes

Na coluna anterior a esta,   que redijo no momento, me referi à seguinte questão: “Por que a escola não está conseguindo formar leitores?”  Na verdade, eu pretendi  fazer referência à escola como instituição sócio educativa que é, e não centrar o  processo social e educacional, desarticulado e ineficiente,  na figura do professor. Que  aliás, no processo todo, é o professor o menos responsável. Bem mais vítima, do que algoz.

Defendo, sim, os professores, principalmente os que atuam na rede pública. Dos muitos que tem na leitura um hábito formado, salutar, liberto e investigador. Que apreciam conhecer outras e novas formas de olhar o mundo, de enfrentar desafios, de viverem  diferentes e exitosas vidas no imaginário; aspectos extraordinários que o mundo real nega ou  vem dificultando o acesso.

Tenho encontrado vários destes professores – fiéis educadores – nos encontros pedagógicos e culturais, nas visitas às escolas, em seminários e palestras afins. São os que vão além das próprias preferências em leitura e que transmitem o gosto de ler para seus alunos com um entusiasmo tal, capaz de estimulá-los a investirem, também eles, na própria formação leitora.  

Mantenho a mesma posição da coluna anterior a esta. Vivemos hoje um momento extremamente difícil – de falta de crédito e respeito à escola e a seus profissionais de parte de pais e de governantes; de violência no entorno e dentro dos prédios escolares; de mau uso de verbas públicas na educação; de raso investimento na cultura.

Este clima de terror tem assustado muitos professores a ponto de mantê-los numa trincheira capaz de torná-los  dissidentes de seus muitos valores éticos e intenções responsáveis. Nem todos sucumbem a este estado de terror, mas é evidente o prejuízo que isto traz ao processo como um todo.

Felizmente, alguns – quero crer que sejam muitos – não se submetem a um sistema ruim. São profissionais inconformados que seguem acreditando no valor da leitura como impulsionador de conscientização e salvação de uma coletividade. E mais, na responsabilidade e na habilidade de fazer de cada aluno um leitor reflexivo, atuante e comprometido com a sociedade. Como ele próprio o é.

No entanto, descreio que o exemplo, por si só,  de parte de um professor leitor tenha a garantia de excelentes resultados junto a seus alunos, de maneira total.  Afirmar que alunos não leem porque o professor tampouco lê  é um jeito simplista de analisar os fatos. Não é  o  caso de  eximir o professor da tarefa que lhe cabe – como leitor ou não leitor convicto –  dentro do processo ensino-aprendizagem em relação à leitura. Porém, muitos destes professores que citei acima, que reconhecem o valor da leitura, apoiados nos seus próprios procedimentos, e que investem prioritariamente na formação leitora em suas classes, veem encontrando  sérias dificuldades  no seu trabalho.

Com exceções, seus alunos procedem de famílias onde não existe o estímulo para a leitura, onde livros, revistas e jornais não circulam e onde a comunicação é restrita às redes, independente de classe social.   Ambientes voltados estritamente ao entretenimento, com personagens  televisivos proporcionando brincadeiras saídas da tela da TV, tem garantido  sucesso estrondoso em diferentes espaços das cidades. Enquanto isto, grandes e pequenas livrarias e algumas instituições culturais tem-se esforçado para oferecer espaço de leitura para os pequenos, com contação de histórias e mediação de leitura, mas é ainda tímido o comparecimento da família.

São alguns dos muitos pontos controversos que observo como desestimuladores à formação leitora dos pequenos. Sempre será,  sim, responsabilidade da escola, a formação da criança e do jovem quanto às suas habilidades leitoras. Mas é  utopia pensar que  a escola  pode andar sozinha numa sociedade que corre na contramão.

                                                                                                                             

            

 

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