Sobre o perigo das certezas ou Sobre a Benção da Incerteza

Maurem Kayna

As polêmicas regurgitadas nas redes sociais nem sempre geram consequências na vida que a geração anterior a dos nativos digitais costuma chamar real. Mas algumas vezes chegam a fazer com que pessoas cheias de energia e certezas saiam às ruas, promovam censura, realizem protestos, linchem pessoas, validem ou derrubem governantes.  Um dos debates da vez, porém, foi muito útil para fazer com que eu olhasse para meu próprio umbigo.

Não é de hoje que vemos juízes sem toga por todo lado, mas nos últimos tempos uma horda de pessoas vem lançando longos veredictos sobre o que pode e o que não pode ser considerado arte. Argumentos muito parecidos defendem posições opostas. Em comum a certeza de que sua visão teria todo o direito de prevalecer sobre as demais. Também vejo convicções sobre o que deve e o que não deve estar acessível a crianças, e por aí vamos.

Não, não serei uma a mais a sentenciar que atitude deveria ter sido tomada pelo Banco, pelo Museu, pelos governantes, pelos ativistas com os quais concordo ou os que deploro. Quero falar do quanto meu incômodo com as certezas alheiras – independente de eu estar de acordo com algumas delas, me fez refletir sobre quanta besteira eu mesma posso já ter dito sobre o que seja e o que não seja literatura, especialmente nas vezes em que cedi à tentação de embarcar na onda das classificações ligeiras – literatura de verdade x literatura comercial ou de entretenimento.

Segundo o Houaiss (quem me conhece sabe que gosto de dicionários!) há pelo menos 26 definições para a palavra arte em diferentes contextos – inclusive o das traquinagens das crianças. Minha definição preferida seria a que diz que arte é a “produção consciente de obras, formas ou objetos, voltada para expressão da subjetividade humana, os nossos sentimentos e opiniões, assim como para retratar as nossas experiências, transmitir informações e semear beleza, divertimento e reflexão ‹a. literária› ‹a. da pintura› ‹a. cinematográfica›”.  Certamente poderíamos pensar em outras definições mais abrangentes, mais detalhistas, mas dificilmente alguma delas autorizaria qualquer coisa próxima da censura e da exclusão.

O ponto aqui, porém, não é esse, como disse dois parágrafos acima. O que conta é que não importa se eu prefiro ler clássicos, experimentações linguísticas complexas, poesia fatalista ou biografia de youtuber. Minhas escolhas são apenas isso – escolhas. E quiçá eu (e todo mundo!) não corra o risco de perder o direito de fazê-las.

 

Comentários:

Muito bom.
Cassio Pantaleoni, Porto Alegre 11/10/2017 - 15:08

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