Um dopplegänger de Caio F.

José Elesbán Rodrigues

“Enquanto Caio” é o mais recente livro de Marcelo Rocha, professor universitário, doutor em Teoria Literária e escritor. A novela, publicada pela Editora Metamorfose, se estrutura ao redor de um dia, durante o qual acompanhamos o fluxo de pensamento do personagem, Marcelo, como o autor, um professor universitário sexagenário a caminho da aposentadoria, casado com uma mulher quase vinte anos mais nova, também professora, Júlia, e pai de uma menina que não deve ter mais de onze anos, Mariana. Tem também um gato, o Lupi.

Durante esse dia há três coisas acontecendo; Marcelo precisa escrever um ensaio sobre teoria literária para um suplemento cultural de um indefinido jornal; é seu aniversário de sessenta e sete anos; e é o dia do aniversário de Caio Fernando Abreu, referido como "Caio F." no livro, que também faria sessenta e sete anos. Marcelo se estabelece então como um duplo ("dopplegänger") de Caio Fernando. Isso nos permite concluir que é doze de setembro de 2015, na cidade de Porto Alegre.

Uso a palavra fluxo de consciência aqui liberalmente. Não temos aquele texto em formato de parágrafo quase único, em que o pensamento do narrador vai fluindo, às vezes aleatoriamente. No caso de "Enquanto Caio" temos um mundo interior do personagem. Enquanto é premido pelo prazo de entrega do ensaio (o texto precisa estar na redação do jornal até o final da tarde), ele pensa no valor da literatura, na motivação para escrever, nas atitudes de seus alunos na universidade, e cita muitos autores. Como diz William Boenavides na apresentação do livro, o Marcelo personagem cita Terry Eagleton, Manoel de Barros, Dostoiévski, Cortázar, João Gilberto Noll, Galeano, Luiz Ruffato e outros (eu destacaria Pedro Juan Gutiérrez e a própria Mariana, personagem do livro). Dentro da narração ainda há lugar para a citação de uma suposta rádio web especializada em tocar os sucessos dos anos 1980, em canções que são citadas no livro.

Os anos 1980 podem ser vistos como os anos de início de idade adulta de Caio Abreu e Marcelo, e também como o período em que foram lançadas as obras mais conhecidas de Caio Abreu.

Também podemos pensar que a constante evocação de Caio F. por Marcelo os contrapõe. Caio o escritor, o prático, o que abandonou o curso de letras para se dedicar às letras, e delas viveu. Intensamente, por sinal. Já Marcelo seria o teórico, que não apenas se graduou em Letras, como se pós-graduou e foi seguir carreira acadêmica na área. Seguiu com a vida pequeno-burguesa, com direito a uma família que é quase semelhante às famílias das propagandas de margarina que havia na TV.

A palavra “Insílio” é chave na novela. Esta palavra hispânica (acredito que será incorporada ao português) é uma espécie de antônimo de exílio, uma estrutura mental em que a pessoa se isola espiritualmente, mas continua no seu lugar de origem, um isolamento do mundo, permanecendo fisicamente no mundo. Insílio é o que define esse mundo interior de Marcelo, angustiado com o prazo de entrega de seu ensaio, e com quase tudo à sua volta.

O livro é uma pequena joia.

 

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