O cão late e a caravana...

Simone Saueressig

Não há dia que passe que eu não me espante com o tamanho do desinteresse que o Brasil tem pela Educação. Como agora, no começo de 2018, quando o assunto encheu tempo de rádios, televisões, espaços de jornais e rede social. Mas depois passou e, na semana passada, foi substituído pelo assume-não-assume da, talvez, Ministra do Trabalho.

O caso é que a Lei Orçamentaria Anual foi sancionada no último dia 2 de janeiro, pelo presidente Temer, com um único veto.

Só teve esse, nenhum outro.

O veto corta a verba complementar que garantiria R$ 1,5 bilhão para o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb).  "Não adianta dar mais recurso para uma área de tirar de outras, como educação básica e universidades, por exemplo", disse o Ministro da Educação, Mendonça Filho, ao Estadão. "Temos um governo realista, com um orçamento cada vez mais realista”, afirmou o político.

Ah, eu também acho (é ironia).  A gente precisa ser realista, mesmo. Educação é uma daquelas coisas que esse governo que está aí, preza tanto quanto a pasta da Cultura, que o presidente tentou extinguir ao assumir o cargo, e teve de voltar atrás pela pressão popular. E, francamente, nem tanta pressão foi:  foi uma pressãozinha de nada, chata, mas uma pouca coisa se comparada com as multidões que encheram as ruas pedindo a saída do PT do poder.

Sendo "irrealista", então, imagina o que uma multidão daquelas conseguiria se saísse às ruas pedindo que o recurso seja aprovado. Dizendo que acha que escola é uma coisa importante, sim, que precisa ter verba extra para crescer e aparecer, sim, que professor deve ser valorizado, sim, e estimulado a se especializar, sim. Imagina o que aconteceria se aquela gente toda saísse pedindo mais vagas em creches, escolas mais preparadas, com tudo certinho: banheiros limpos, salas bem organizadas, bibliotecas - oh, as bibliotecas, Senhor, tende piedade delas! - renovadas e cheias de novidades bacanas para despertar o interesse dos leitores nessa coisa misteriosa, incrível e escorregadia que é a Literatura.

Imagine. Por um momento, feche os olhos e imagine. Um Brasil de alunos interessados, professores estimulados, locais para o ensino seguros, longe dos traficantes, das balas perdidas, dos medos do cotidiano. Imagine gente que sabe ler e interpretar textos, lendo bulas de remédio e sabendo como usá-los corretamente. Sabendo ler um manual de instruções de um equipamento de construção. Sabendo interpretar uma notícia e ligar fatos de dois anos atrás, vinte, duzentos, e chegar à sua própria opinião, sem ter de assumir a opinião alheia como sua, por absoluta falta de preparo. Imagine alguém assistindo futebol e sabendo onde a partida acontece, que cidade, estado ou país o time representa, sendo capaz de viver ricamente esse mundo rico que temos ali assim, ao nosso alcance, logo além da tela do celular e das redes de emburrecimento social. Imagine pessoas capazes de desenvolver softwares completamente inéditos, remédios novos, música nova, gente que vá à uma exposição de Arte e ao invés de se sentir ofendido com um pensamento diverso ao seu, fosse capaz de fazer uma reflexão sobre seus próprios valores. Imagine um Brasil que soubesse aproveitar melhor as sobras de sua comida, reutilizar objetos velhos, ou, como mínimo, separar adequadamente o seu lixo.

Imaginou?

Pois esse país vai ficar na sua imaginação. O veto foi publicado dia 3 de janeiro, e quem é que se importa com o Brasil num 3 de janeiro, com tanta praia, tanto sol e tanto calor? Quando terminar o Verão e acontecerem as eleições, aí a gente muda o mundo.

Até lá, a gente vai empurrando com a barriga, que ninguém é de ferro. Esse assunto já é velho, já estreou novela nova. A gente já descobriu que bater panela é um troço que funciona, mas funciona para quem? Trocamos uns por outros, a coisa ficou exatamente no mesmo. O Brasil é assim, nós não vamos mudar nada, meu filho vai na creche particular, depois eu vejo como vou fazer para pagar as contas. Se der.

Não, não é uma verba de R$ 1,5 bilhão que vai mudar as coisas, embora ajudasse, e muito. O que vai mudar, se mudança houver, é a nossa forma de pensar. As coisas às que realmente damos importância. Vai mudar se o professor for respeitado dentro e fora da sala de aula e não afrontado como se fosse um inimigo. Vai mudar se as famílias se engajarem diretamente com a escola porque ela é o lugar mais importante depois das nossas casas, visto que nossas crianças passam lá a maior parte de seu dia.  Vai mudar quando a gente acreditar que a Educação muda a vida de um indivíduo, de uma família, de uma nação, apesar da extrema dificuldade que ela oferece: não se pode comprar conhecimento, como o smartphone da temporada. Conhecimento não pode ser terceirizado. Conhecimento precisa ser aprendido pessoalmente, a custo de trabalho, esforço, tempo, dedicação. Como todas as coisas valiosas deste mundo, é pessoal e intransferível. Não há outra maneira.

Enquanto as coisas não mudam nem dão sinais de mudança, este cão, como alguns outros, continuará latindo sua ladainha: Educação! Educação! Educação!

E a caravana carnavalesca tupiniquim passa. Ao largo, porque de vez em quando os latidos incomodam um pouco.

 

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