A habilidade em contar histórias

Jacira Fagundes

Jorge Amado se intitulava um contador de histórias. E era dos melhores. Na juventude li muito Jorge. Seara vermelha, Mar morto, Pastores da noite e Tenda dos milagres, entre outras, foram histórias brilhantemente narradas pelo inigualável contador de histórias que foi o escritor Jorge Amado. Contar bem uma história é arte que pode ou não se aliar ao talento de um escritor, sem desmerecê-lo. Mas é fascinante quando o leitor percebe a presença e, ao ler ou ouvir simplesmente, se deixa guiar por este personagem contador.

Trago este assunto ao lembrar do quanto me encantou a leitura do livro, categoria infanto juvenil, do consagrado autor baiano – “O gato malhado e a andorinha Sinhá”. A obra é uma fábula, eu acrescentaria contemporânea, embora tenha sido escrita há mais de setenta anos. Narra o amor entre seres diferentes com toda a carga que costuma marcar a extrema desigualdade entre bichos ou entre homens. Encanta pelo tema – o amor – e pela história narrada, como se alguém muito próximo de nós contasse, e enquanto contasse, nos embalasse em seu contar.

Atualmente convivemos, em grande escala, com a figura do contador de histórias, leitor contumaz da imensa oferta de literatura infantil e juvenil publicada a cada ano, desempenhando o papel de contar histórias para gente pequena reunida em escolas, em livrarias ou feiras. O contador se faz presente do lado de cá da narrativa escrita, se aliando ao escritor na expressão da verdade que este depositou em sua obra. Não é um mero reprodutor da história escrita, vai além, é a voz, própria e singular do personagem contador.

Daí o ponto fascinante: uma história bem escrita valer-se da presença talentosa de alguém que narra com um vigor e uma emoção que contagiam, primeiro a ele – o contador – e logo ou simultaneamente àquele que o ouve com igual arrebatamento. Tenho assistido a apresentações de contadores de histórias. Assisto de alma lavada e inquieta, descontraio-me, dou risadas, acompanho a história com êxtase incalculável.

O escritor que se dedica a escrever para crianças carrega consigo este potencial. Ele sabe contar histórias, porém, seu campo de criação é a página, onde ele escreve reunindo todos os sentimentos possíveis e prováveis, visando encantar os pequenos leitores, e não só os pequenos. Gente grande também costuma apreciar belas histórias. Por vezes, por poucas vezes, os dois talentos unem-se num só personagem – o escritor e o contador. Quando isto acontece, é algo maravilhoso.

Não é o meu caso. Já contei histórias, somente as minhas histórias inventadas, mas não posso negar o quanto de dificuldade encontro nesta segunda habilidade.

Uma vontade em aproximar o escritor do contador de histórias num livro infantil, permaneceu comigo por algum tempo. Nasceu na ocasião em que participei de uma exposição de cadeiras em diferentes formatos e manipulações artísticas. Na ocasião, desenvolvi um projeto de simular uma cadeira contando histórias. Em razão do pretendido, a cadeira escolhida – assento, espaldar, pernas – foi coberta por livros, páginas e ilustrações de livros infantis.

Não sei por quanto tempo a vontade foi somente uma ideia. Hoje estou feliz porque sei que ela se concretizou. Com ansiedade, estou aguardando “ A cadeira contadeira”. O livro está no prelo. Deve chegar a qualquer momento, planando pelo céu de Juiz de Fora em Minas Gerais até esta Porto Alegre, nem sempre tão Alegre. O livro me trará alegria. Será bem-vindo.

É minha homenagem a estes contadores de histórias. A estes leais contadores, com suas linguagens próprias e com seus gestos primorosos a desafiar o mundo de crianças, jovens e adultos com a fantasia.

 

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