Sobre passos e silêncios

Caroline Rodrigues

Ano passado tive a felicidade de ler uma entrevista* com o pensador francês David Le Breton, doutor em Sociologia, na qual ele declara que ficar em silêncio e caminhar representam formas de resistência política no mundo contemporâneo. Ele defende que “[o] silêncio permite-nos ser conscientes da conexão que mantemos com esse espaço interior, o silêncio a visibiliza, enquanto o ruído a esconde. Outra maneira de nos conectarmos com o nosso interior é o caminhar, que transcorre no mesmo silêncio.” Entendi, pela leitura, que o ato de resistência política tem a ver com o perfil nada utilitarista dessas duas ações hoje em dia, uma característica essencial de todas as ações humanas consideradas “normais.” Ou seja, caminhar sem rumo e ficar em silêncio são vistos como comportamentos fora do padrão.

Acabei fazendo uma relação desses dois atos de resistência com o ato de escrever. Não como formas de resistência política em si (sem, no entanto, excluir esta possibilidade), mas como fatores de grande importância para a escrita. Comecei a imaginar a pessoa na frente de um computador, ou de um caderno, preparada para suas elucubrações quando se dá conta de que está rodeada de barulhos irritantes, os quais podem variar de uma torneira pingando até uma britadeira perfurando o asfalto em frente ao prédio.

Penso que, para escritores, o silêncio é essencial. Muito da pitada de loucura necessária na criação só acontece no silêncio, quando prestamos atenção às vozes que não nos deixam em paz, ditando trechos infinitos de ficção misturados à realidade. É neste momento que o silêncio vem para elaborar e redimensionar nossa criatividade, para nos fazer ouvir o papel em branco clamando para ser preenchido. Não é à toa que existem tantos filmes que retratam escritores buscando uma casa isolada para “curar” um bloqueio criativo.

Já o ato de caminhar sem um objetivo muito definido pode, a meu ver, ser uma forma de conquistar um olhar estrangeiro sobre o que nos cerca. Deixar de lado o caminho habitual - aquele feito com veículos automotores -, e ver e sentir as emoções que transbordam as gentes e as ruas, pode ser uma forma de aprimorar e apurar os sentidos. Ouvimos frases, sentimos cheiros e pisamos em superfícies prontas para nos guiar ao próximo personagem ou ao novo conflito.

Elaborar ideias, brigar com planos, traçar linhas, afugentar bloqueios ou ter uma acalorada discussão consigo mesma. Penso em diversas possibilidade trazidas pelo silêncio ou por uma caminhada. Escritores, assim como outros e outras profissionais que dependem da criatividade, podem tirar um grande proveito desses momentos vistos como “subversivos” hoje em dia. Fiquei imaginando um encontro com esse espectro criativo, no topo de uma colina, depois de uma longa caminhada, durante a qual as pernas ecoaram somente o som dos passos. Na chegada, a paisagem é absorvida na quietude e o som dos próprios e ricos silêncios é transformado em páginas e páginas escritas.


*leia aqui http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/572949-ficar-em-silencio-e-caminhar-sao-hoje-em-dia-duas-formas-de-resistencia-politica

 

Comentários:

Gostei da ideia do caminhar à toa, Platão e Aristóteles caminhavam horas "filosofando" (peripatética) e o silêncio é roteiro mental para a meditação Zen-budista. Ambos são formas preciosas para quem quer se dedicar à literatura.
sebastião pereira da costa, itapeva-sp 06/09/2018 - 08:35

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